Gabriel Ganley, vinte e dois anos, fisiculturista, influenciador, corpo trabalhado como mármore de Carrara, foi encontrado morto. A mãe, antes que qualquer perito termine seu trabalho, sobe ao Instagram e entrega o veredicto pronto, embalado para viagem: foi "fatalidade". O velório será fechado. O corpo será cremado nesta segunda-feira, por volta das onze da manhã. E pronto, está encerrado o caso antes mesmo de começar. A palavra "fatalidade" tem essa função litúrgica em português, ela é o ponto final que dispensa o ponto de interrogação, é o tapete bordado que se joga sobre a poeira para que ninguém pergunte de onde veio a sujeira.
É preciso ter um certo descaramento histórico para chamar de "fatalidade" a morte súbita de um rapaz de vinte e dois anos cuja profissão era exibir um corpo que a natureza, sozinha, não entrega a ninguém. Fatalidade é o raio que cai do céu azul, é o meteorito que decide o seu CEP. A morte de um atleta jovem que trabalhava no limite farmacológico da própria fisiologia não é fatalidade, é estatística. E estatística, por definição, é o contrário de fatalidade: é previsibilidade, é cálculo, é a curva que qualquer cardiologista honesto desenha no guardanapo quando o assunto entra à mesa.
Mas o detalhe verdadeiramente eloquente desta história não está no que aconteceu, está no que se escolheu não acontecer. Velório fechado. Cremação imediata. Comunicado emitido pela própria família antes que o Estado, com toda a sua lerdeza burocrática, pudesse formalizar qualquer hipótese. Cinzas não falam, cinzas não testemunham, cinzas não pedem segunda opinião. Há uma diferença civilizacional entre enterrar e cremar quando o assunto é dúvida pendente: o corpo enterrado é uma testemunha que dorme, o corpo cremado é uma testemunha que foi embora. Quem decide queimar a evidência antes da pergunta está, no mínimo, antecipando que a pergunta viria.
E aqui entra a parte que ninguém quer encarar de frente, porque mexe num arranjo confortável que sustenta um mercado bilionário. A indústria do fitness influencer move farmácia, suplemento, academia, patrocínio, contrato de imagem, monetização de plataforma. Cada corpo desses na tela é uma vitrine ambulante de produtos que, no varejo legal, não fariam o que a foto promete. Quando um deles cai, o ecossistema inteiro tem interesse em que a causa seja qualquer coisa menos a óbvia, porque a óbvia revela o modelo de negócio. Chame de "fatalidade", chame de "problema cardíaco congênito", chame de "destino", chame de o que quiser, contanto que não se chame pelo nome verdadeiro. O silogismo é cruel mas é simples: corpos que a fisiologia humana não produz exigem substâncias que a fisiologia humana não tolera, e o que ela não tolera, ela termina rejeitando da única maneira definitiva que conhece.
Há ainda a dimensão cultural, que é onde a derrota se consuma antes da morte clínica. Construiu-se uma geração inteira convencida de que o corpo é um projeto de engenharia, que a vaidade é virtude, que o espelho é a única instância de validação que importa, e que seguidores no Instagram são uma forma legítima de capital. Esse rapaz, em alguma medida, foi vítima de um consenso, e quando todo mundo concorda que a coisa é assim, geralmente é porque há alguém ganhando muito dinheiro com que ela continue sendo assim. O influenciador morre, o algoritmo segue, e amanhã há outro corpo perfeito ocupando o mesmo espaço, vendendo o mesmo whey, repetindo o mesmo gesto, caminhando rumo ao mesmo desfecho que será, novamente, classificado como "fatalidade" pela próxima mãe destruída.
Que a família tenha direito ao luto privado, ninguém discute, é dela a dor e é dela a decisão. Mas que se chame as coisas pelo nome: cerimônia fechada e cremação às pressas com nota pronta não é luto, é gestão de comunicação. E gestão de comunicação, num caso como este, costuma servir menos aos mortos e mais aos vivos que ainda têm contratos a cumprir, marcas a preservar, escolas e academias e patrocinadores a tranquilizar. O rapaz virou cinza ao meio dia. A pergunta que ninguém quis fazer continua de pé.
Com informações da Jovem Pan. A análise e opinião são do O Algoz.