Péter Magyar mal terminou de contar os votos e já bateu na porta do presidente Tamás Sulyok para exigir-lhe a renúncia. Pediu também que a nova Assembleia Nacional se reúna no dia 4 de maio, como se a pressa fosse sinal de virtude e não de apetite. O gesto, vendido à imprensa como demonstração de força democrática, é na verdade a mais velha manobra do manual revolucionário: antes que o povo perceba o que aconteceu, consolide o poder, troque os nomes nas portas e mantenha a máquina funcionando exatamente como antes, só que a seu favor.

O caso húngaro é instrutivo porque desmonta uma ilusão que os europeus adoram alimentar: a de que eleições, por si mesmas, mudam alguma coisa substancial. Viktor Orbán governou a Hungria por quatorze anos com mão de ferro, aparelhou o Estado, direcionou contratos bilionários para amigos e familiares, controlou a mídia e transformou Budapeste numa espécie de laboratório de autocracia com verniz parlamentar. E o que faz o seu grande opositor ao vencer? Exige poderes imediatos, pressiona pela renúncia de quem ocupa a presidência cerimonial e quer o parlamento funcionando antes mesmo de ter uma coalizão formada. A pergunta que ninguém faz em Bruxelas, porque Bruxelas nunca faz as perguntas certas, é simples: para que tanta pressa, se não para garantir que a distribuição dos despojos comece antes que os aliados de ocasião mudem de ideia?

A história da Europa central é uma sucessão interminável dessas trocas de guarda que nada alteram na estrutura do saque. A Hungria passou dos Habsburgos aos soviéticos, dos soviéticos aos socialdemocratas, dos socialdemocratas a Orbán, e agora de Orbán a Magyar, sempre com a mesma lógica de fundo: o Estado é um butim, e o vencedor leva tudo. Magyar construiu sua carreira como insider do sistema Fidesz, foi genro de um dos homens fortes do regime, frequentou os mesmos corredores, comeu na mesma mesa, e só se tornou oposição quando a porta se fechou para ele. Isso não é dissidência; é ressentimento de quem foi excluído do banquete. O povo húngaro, coitado, aplaude porque confunde a troca de garçom com a mudança do cardápio.

Sulyok, o presidente cerimonial a quem Magyar exige a renúncia, é ele próprio uma criatura do sistema Orbán, colocado no cargo como peça decorativa depois que a antecessora caiu num escândalo de perdão presidencial a um cúmplice de pedofilia. Ou seja, temos aqui um fantoche exigindo a saída de outro fantoche, enquanto os fios que movem ambos continuam firmes nas mãos de quem realmente manda: a burocracia estatal, os oligarcas que financiam campanhas, os fundos europeus que Bruxelas distribui com a generosidade interessada de quem compra lealdade geopolítica. Ninguém pergunta de onde vem o dinheiro porque ninguém quer ouvir a resposta. Os bilhões do orçamento europeu que irrigam a Hungria não vão para o "povo", vão para os mesmos grupos econômicos que, ontem alinhados a Orbán, amanhã estarão alinhados a Magyar, porque o dinheiro não tem ideologia, tem endereço.

O que Magyar oferece de diferente? Retórica pró-europeia onde Orbán oferecia retórica soberanista. No plano concreto, porém, o aparato estatal continuará cobrando os mesmos impostos, distribuindo os mesmos subsídios, controlando as mesmas concessões, regulando as mesmas atividades. O contribuinte húngaro, que paga uma das cargas tributárias mais regressivas da Europa com seu IVA de 27%, continuará financiando a festa, apenas com outro anfitrião. A grande fraude da política moderna é convencer o cidadão de que a alternância de poder equivale à limitação do poder. Não equivale. Nunca equivaleu. A Hungria não precisa de um novo líder; precisa de menos Estado. Mas isso, evidentemente, nenhum candidato jamais vai propor, porque seria o mesmo que um parasita sugerir a cura da doença que o alimenta.

Com informações do Poder360. A análise e opinião são do O Algoz.