Peter Magyar surgiu do nada, ou melhor, surgiu exatamente de onde os líderes de oposição costumam surgir quando o establishment ocidental decide que é hora de trocar o inquilino: das páginas de jornais simpáticos a Bruxelas, de eventos patrocinados por fundações com nomes bonitos e dinheiro de origem conveniente, de entrevistas concedidas a veículos que não perguntam o que não deve ser perguntado. Ele é a novidade apresentada como redenção, o rosto novo colado sobre a velha agenda, e a promessa central da sua candidatura é de uma singeleza encantadora: vamos nos aproximar da Europa. Como se a Europa fosse um ser vivo esperando com os braços abertos, e não uma estrutura burocrática supranacional que distribui fundos e cobra obediência regulatória com a gentileza de um agiota de terno.
Convém lembrar o que significa, em termos práticos, "reaproximar-se da União Europeia". Significa aceitar o pacote regulatório de Bruxelas, cujas normas são redigidas em processos opacos por burocratas não eleitos que respondem a grupos de interesse tão específicos quanto poderosos. Significa abrir o mercado nacional às condições negociadas nos corredores de Estrasburgo por lobistas que pagam bons almoços e recebem legislação favorável em troca. Significa reintegrar o sistema bancário húngaro às cadeias de financiamento do Banco Central Europeu, que desde 2015 expandiu seu balanço em proporções que fariam corar qualquer falsificador medieval. A Europa que Magyar promete reconquistar não é a Europa de Sócrates debatendo na ágora. É a Europa de Christine Lagarde imprimindo dinheiro enquanto explica que a inflação é temporária.
Quanto à narrativa de que Viktor Orbán governou de forma "pró-Russa" por dezesseis anos, ela merece o escrutínio que o consenso de mídia sistematicamente recusa. Orbán fez o que líderes nacionais fazem quando percebem que têm alavancagem geopolítica: negociou com todos os lados e vendeu caro a própria lealdade. Comprou gás russo quando era barato, resistiu a sanções que custariam mais à Hungria do que à Rússia, e em troca recebeu a pecha de fantoche de Putin de uma imprensa que não viu problema nenhum nos laços energéticos germânicos com Moscou durante décadas. A questão não é se Orbán é virtuoso, porque não é, a questão é que o padrão aplicado a ele nunca foi aplicado a governos que fazem negócios igualmente promíscuos com igualmente duvidosos parceiros desde que usem a linguagem certa sobre democracia e valores europeus.
Magyar promete ser diferente. Magyar sempre promete ser diferente. É o arquétipo do político redentor que aparece quando o antigo controle se desgasta: não traz ideias novas, traz a velha agenda com nova embalagem, e a nova embalagem é ele mesmo. O truque funciona porque o eleitor cansado de um regime não pergunta o que o substituto vai fazer de diferente, pergunta apenas se o rosto é outro. Nas repúblicas romanas em colapso, os reformadores chegavam prometendo devolver a virtude ao Senado e terminavam sentados nas mesmas cadeiras fazendo os mesmos negócios com os mesmos patriarcas. A história tem pouca originalidade e muita repetição.
Siga o dinheiro e você encontra a resposta. Quem tem interesse em que a Hungria "se reaproxime da Europa"? Os contribuintes húngaros que pagam impostos e vivem suas vidas? Ou as redes de organizações não governamentais financiadas por capitais ocidentais, os consórcios empresariais que dependem de contratos públicos europeus, as estruturas financeiras que lucram com a integração regulatória e a harmonização fiscal? Magyar pode ou não ser um homem de convicções sinceras, isso é irrelevante. O que importa é que a estrutura que o sustenta tem interesses muito claros, e esses interesses não coincidem com os do húngaro médio que acorda às seis da manhã para trabalhar. Quando alguém promete liberdade e os que o financiam ganham com a dependência, a contradição não é acidente. É o produto.
Com informações do Poder360. A análise e opinião são do O Algoz.