Cole Tomas Allen, trinta e um anos, professor na Califórnia, foi flagrado na última noite de sábado tentando furar o cordão de segurança do Jantar dos Correspondentes da Casa Branca com um manifesto pronto para a posteridade. O New York Post publicou o documento na íntegra, e ali está, em prosa burocrática de quem dá aula durante a semana, a tal lista de motivações, as regras de engajamento, o pequeno tratado de quem decidiu encenar a própria sentença diante de câmeras. O detalhe que ninguém quer encarar é que o agressor não saiu de uma caverna obscura: saiu da sala de aula, recebeu salário pago com imposto, e foi formado pela mesma engrenagem que hoje finge horror diante do produto final.
Convém olhar o cenário do crime antes de chorar pela vítima. O Jantar dos Correspondentes deixou de ser cobertura jornalística há décadas e virou baile de debutantes do poder, onde repórter abraça assessor, editor brinda com lobista, e a celebridade do momento faz piada sobre o presidente que, na semana seguinte, será reverenciado em editorial solene. É o Versalhes do Potomac, com champanhe importado e smoking alugado, custeado por verbas publicitárias que, em última instância, saem do bolso do contribuinte que jamais foi convidado. Quem paga a festa nunca senta à mesa. Quem senta à mesa cobre quem paga a conta. A simbiose é perfeita, e o atirador, ainda que demente, percebeu o óbvio que a redação se recusa a admitir.
O manifesto, segundo o que vazou, mistura ressentimento político com delírio de grandeza, receita conhecida desde o século dezenove, quando anarquistas com bomba no bolso achavam que matar arquiduque resolveria a questão social. Não resolveu então, não resolverá agora, e o resultado prático sempre foi o mesmo: mais polícia, mais vigilância, mais lei de exceção, mais orçamento para os mesmos órgãos que falharam em prever o ataque. Toda tentativa de violência contra o establishment termina, paradoxalmente, fortalecendo o establishment. É a lei de ferro do terror político, e quem ganha é sempre quem já estava ganhando, agora com pretexto novo para apertar o cerco sobre o cidadão comum que jamais pensou em atirar em ninguém.
Há também a questão incômoda do perfil. Professor universitário californiano, trinta e um anos, formação em humanidades presumivelmente generosa em teoria crítica e pobre em lógica elementar. A academia americana produz há trinta anos uma legião de jovens convencidos de que a violência é instrumento legítimo quando o adversário é suficientemente demonizado, e depois finge surpresa quando um deles leva a doutrina às últimas consequências. Plantou-se vento, colhe-se tempestade, e o departamento de comunicação da universidade já deve estar redigindo a nota de pesar onde tudo se explica menos o currículo que formou o sujeito. As ideias têm consequências, e quando se ensina por uma década que o oponente político é literalmente fascista, não se pode espantar que algum aluno aplicado tire as conclusões práticas do silogismo.
Resta a pergunta que organiza tudo: a quem serve este episódio? Serve ao aparato de segurança, que pedirá orçamento maior na próxima dotação. Serve à imprensa, que ganhará dois ciclos de noticiário se vitimizando, esquecendo que ela mesma alimentou o clima de histeria permanente. Serve ao governo de plantão, que terá pretexto para apertar leis sobre porte, sobre discurso, sobre vigilância digital, sempre em nome da proteção daqueles mesmos jornalistas que, ironicamente, deveriam vigiar o governo. O cidadão pagador de imposto, esse, sai duplamente derrotado: pagou a festa onde não foi, pagará a segurança que não o protege, e ainda escutará pela milésima vez que precisa ceder mais um pedaço da liberdade em troca de uma promessa vaga de tranquilidade. O rei continua nu, o jantar continua caro, e o palhaço de plantão apenas mudou de fantasia.
Com informações da Gazeta Brasil. A análise e opinião são do O Algoz.