O espetáculo abriu com "Eye of the Tiger" estourando nas caixas de som, e a candidata subiu ao palco com o ar de quem acabou de derrotar Apollo Creed na escadaria da Filadélfia. Pequeno detalhe inconveniente: Rocky Balboa era um pobre coitado de Kensington que apanhava em academia de fundo de quintal para pagar o aluguel, não uma profissional da política com vinte anos de mandatos, assessores, cota parlamentar e plano de saúde pago pelo cidadão que acorda às cinco da manhã para pegar o busão. A trilha sonora é a parte mais sincera do evento, porque tudo ali é roteiro de cinema, encenação cuidadosamente coreografada para vender, ao distraído, a fantasia de que existe underdog em quem nunca largou a teta pública.

Convém lembrar a trajetória sem o filtro do diretor de fotografia. Vereadora aos vinte e poucos, deputada federal por mandatos seguidos, candidata a vice na chapa presidencial, candidata a prefeita da capital gaúcha, e agora pré-candidata ao Senado. Em nenhum desses postos houve a tal "ideia" que produzisse uma empresa, uma folha de pagamento, um produto, um centavo gerado fora do orçamento que o restante da população é obrigada a sustentar sob ameaça de cana. A "luta de ideias", quando se examina o currículo, sempre desemboca no mesmo lugar curiosamente confortável: novo cargo, novo gabinete, novo salário tabelado em lei que o próprio beneficiário ajuda a fixar. Coincidência admirável.

A peça retórica da "luta" merece desmonte cirúrgico. Luta pressupõe risco. O boxeador que sobe no ringue pode sair com a mandíbula quebrada, sem o cinturão e sem a bolsa. O empreendedor que abre um restaurante pode fechar em seis meses devendo aluguel e fornecedor. O agricultor que planta pode perder a safra para a geada. A candidata ao Senado, se vencer, ganha oito anos de mandato com salário de trinta e tantos mil, verba indenizatória, assessoria, passagens, imunidade e aposentadoria proporcional. Se perder, volta para a estrutura partidária que vive de fundo eleitoral e fundo partidário, dinheiro arrancado de você via tributo para financiar a próxima tentativa. Onde está o risco? Onde está o soco que dói? A única coisa que apanha nesse ringue é o contribuinte amarrado na corda.

O detalhe ainda mais saboroso é a escolha da trilha. "Eye of the Tiger" é hino de filme americano, produzido por estúdio capitalista de Hollywood, vendido em disco pela lógica brutal da oferta e procura, royalty pago a banda que enriqueceu porque agradou ao público pagante. Toda a estética que a candidata pega emprestada vem precisamente do sistema que a sua plataforma política passou a vida tentando regular, taxar e substituir por planejamento estatal. Se houvesse coerência mínima, a entrada teria sido ao som de hino oficial executado por orquestra mantida com emenda parlamentar, num teatro municipal subsidiado, com plateia transportada em ônibus fretado pela prefeitura. Mas isso não vende ingresso nem mobiliza militante, então pega-se o produto cultural do inimigo declarado e aplica-se sobre a própria marca. Chama-se isso, na linguagem da rua, de surfar onda alheia.

A pergunta que precisa ser feita em qualquer pré-candidatura, e que a imprensa palaciana jamais faz, é elementar: quem paga essa festa e quem recebe a conta? Paga o sujeito que tem trinta por cento do salário retido na fonte antes de ver a cor do dinheiro. Paga o pequeno comerciante que recolhe imposto sobre faturamento mesmo quando dá prejuízo. Paga a dona de casa que compra arroz com tributo embutido em cada grão. Recebe o aparato político-partidário inteiro, do marqueteiro ao cabo eleitoral, do instituto de pesquisa contratado ao gráfico que imprime santinho, todos vivendo da reciclagem permanente do mesmo dinheiro confiscado em nome de uma "luta" cujo único ringue verdadeiro é o cofre público. A trilha pode mudar a cada quatro anos, o filme é sempre o mesmo, e quem compra o ingresso à força nunca foi consultado sobre o roteiro.

Com informações da Poder360. A análise e opinião são do O Algoz.