Uma marca de carros enterrada há trinta e dois anos vai ser desencavada do túmulo, sacudir a terra do caixão e voltar à passarela vendendo elétricos de luxo para concorrer com as alemãs. Repare no detalhe que dispensa qualquer comentário extra: trinta e dois anos atrás ninguém quis o produto, o mercado executou a sentença, o consumidor não pagou a conta e a marca foi para o necrotério das ideias inviáveis. O que mudou na engenharia automotiva, no gosto do público, na demanda real por sedãs de grife morta? Absolutamente nada. O que mudou foi outra coisa, e essa coisa tem cheiro de dinheiro público.

Quando uma empresa privada decide ressuscitar um zumbi comercial, há duas explicações possíveis, e a navalha lógica não admite uma terceira. Ou os executivos enlouqueceram coletivamente, hipótese que descarto porque homens de terno raramente enlouquecem quando o bônus está em jogo, ou existe um incentivo externo que torna lucrativo o que antes era ruinoso. Esse incentivo tem nome, sobrenome e endereço fiscal: chama-se pacote verde europeu, fundo de transição energética, crédito tributário para mobilidade limpa, cota obrigatória de frota eletrificada. Em bom português, dinheiro do contribuinte alemão, francês e italiano sendo redirecionado para a vitrine de carros de cem mil euros que apenas executivos de fundos ESG e burocratas de Bruxelas vão dirigir.

A coreografia é antiga e funcionou em todos os impérios que afundaram. O soberano decreta que o povo vai consumir o que ele decidiu que é virtuoso, monta um sistema de multas para quem desobedece e de prêmios para quem coopera, e os fabricantes correm para a janela de subsídio com a língua de fora. O mercado, esse mecanismo grosseiro que pergunta ao freguês o que ele quer pagar do próprio bolso, é substituído pelo comitê que decide o que o freguês deveria querer. Resultado conhecido: produtos caros, demanda fabricada, lucro garantido para quem está dentro do esquema, conta dividida entre os de fora. O ressuscitado de hoje não está voltando porque o consumidor pediu, está voltando porque o orçamento público chamou.

E note a estética do golpe, que é a parte mais saborosa. Vendem o renascimento como nostalgia, herança, paixão, design italiano, alma de marca. Tudo conversa para boi dormir enquanto a contabilidade real roda nos bastidores. Carro elétrico premium é, hoje, o equivalente automotivo daqueles palácios barrocos que reis falidos mandavam construir para mostrar grandeza enquanto pediam empréstimo a banqueiros estrangeiros. A diferença é que o rei pelo menos pagava com o próprio tesouro pilhado em guerras; aqui, o tesouro pilhado se chama folha de pagamento de quem acorda às seis da manhã e nem sabe que está financiando a fantasia eletrificada de um diretor de marketing em Turim.

O detalhe dos serviços digitais é a cereja. Toda vez que uma indústria tradicional pendura no produto a expressão serviços digitais, traduza imediatamente para assinatura mensal recorrente, captura de dados do motorista e venda de funcionalidades que antes vinham de fábrica. O carro deixa de ser propriedade do dono e vira plataforma alugada vitalícia, o assento aquecido só funciona se a mensalidade estiver em dia, o volante recolhe dados que vão para parceiros comerciais não divulgados. Chama-se inovação. Antigamente chamava-se servidão por contrato, mas servidão vende menos do que inovação.

Então respondamos a pergunta inicial, a única que importa quando o assunto é decreto disfarçado de tendência. Quem paga: o contribuinte europeu, o consumidor que não quer carro elétrico mas será empurrado para ele via banimento dos demais, o trabalhador da cadeia automotiva tradicional que será demitido para reduzir pegada de carbono nos relatórios. Quem recebe: o conglomerado dono da marca ressuscitada, os consultores de transição energética, os fundos verdes, os burocratas de Bruxelas que justificam o próprio salário criando regras, e o pequeno enxame de jornalistas econômicos que vai escrever matéria emocionada sobre o retorno do mito. O mito não voltou. Voltou a fila do balcão de subsídio, e dessa vez ela é elétrica.

Com informações da O Antagonista. A análise e opinião são do O Algoz.