Pablo Marçal, empresário, coach, influenciador e agora autodenominado escudeiro medieval de Flávio Bolsonaro, concedeu entrevista ao Estadão para informar ao país que está "aberto a ajudá-lo". A frase soa generosa até você perceber que o homem que se oferece recebeu, nas eleições municipais de São Paulo, quase dois milhões de votos que não foram para ninguém do clã Bolsonaro. Oferecer ajuda depois de ter demonstrado capacidade eleitoral própria não é lealdade feudal; é negociação com verniz cavaleiresco. E há uma diferença enorme entre as duas coisas, diferença que qualquer homem de juízo percebe antes de terminar a primeira frase.

A palavra "escudeiro" carrega um peso histórico que o influenciador provavelmente não pesou. O escudeiro medieval era o jovem nobre que carregava o equipamento do cavaleiro, aprendia com ele e recebia, em troca, proteção, formação e, eventualmente, a honra da cavalaria. A relação pressupunha hierarquia clara, tempo de serviço e prova de mérito. Marçal, contudo, não está pedindo para aprender, não está chegando sem nome, não está oferecendo servilidade discreta. Está fazendo o anúncio em jornal de grande circulação, com microfone, luz e plateia. O escudeiro que convoca a imprensa para anunciar que vai carregar o escudo alheio não está servindo a ninguém: está se servindo de alguém. A diferença é pequena na fonética e abissal na moral.

A lógica desta aliança não é ideológica, por mais que ambos vistam o uniforme do conservadorismo. É a lógica do mercado eleitoral, que opera como qualquer outro mercado, exceto pelo fato de que o produto negociado é poder sobre a vida alheia. Marçal tem base, tem algoritmo, tem a capacidade comprovada de mobilizar eleitor jovem, desencantado e plugado. Flávio Bolsonaro tem sobrenome, tem partido, tem estrutura e tem o capital simbólico de uma dinastia política que, por ora, ainda tem cotação positiva em bolsa. A oferta de "escudeiro" é, traduzida do medievalês para o português direto, uma proposta de parceria em que cada lado quer o ativo do outro sem abrir mão do próprio. Isso não é aliança política; é due diligence com espada de plástico na mão.

Marçal disse, na mesma entrevista, que vê a disputa política como "guerra". A metáfora é reveladora, não pela dureza, mas pela imprecisão. Política não é guerra, salvo para quem não sabe fazer política. Guerra tem inimigo definido, território a tomar e um objetivo que se encerra quando se vence. A política democrática é, por natureza, o conflito que nunca termina, o processo contínuo de barganha entre interesses legítimos e ilegítimos, o espaço onde a vitória de hoje é o flanco exposto de amanhã. Quando o político fala em "guerra", geralmente está anunciando que não pretende jogar pelas regras, que vai tratar o adversário como inimigo a ser destruído em vez de oponente a ser derrotado nas urnas. No vocabulário de Marçal, isso soa como força. Na prática, é a confissão de quem não domina o instrumento que quer manejar.

O Brasil de 2026 está, portanto, diante de um espetáculo que teria divertido qualquer observador lúcido de repúblicas em decomposição: uma oposição numericamente expressiva, eleitoralmente competitiva e politicamente incapaz de produzir uma liderança que não precise ser anunciada em entrevista como disponível para servir. Enquanto o governo atual avança sem maiores obstáculos na sua agenda de expansão do Estado, de crescimento do gasto público e de captura progressiva das instituições, a alternativa produz coaches que oferecem escudeirismo e famílias que administram legados como se fossem concessões de pedágio. O problema não é Marçal. O problema não é Flávio. O problema é que este é, genuinamente, o melhor que o campo tem a oferecer neste momento, e nenhum dos dois parece ter percebido o peso desta constatação ou, pior, percebeu e não se importou.

Com informações de O Antagonista. A análise e opinião são do O Algoz.