A cena se repete com a pontualidade de imposto vencido. Toda virada de ano, os mesmos cadernos que passaram doze meses despejando manchete catastrófica na cabeça do leitor descobrem, subitamente, que o brasileiro anda ansioso. Espantoso. Quem diria. Depois de uma temporada inteira sendo bombardeado por notícia de tragédia, alta de juros, crise climática terminal, guerra iminente, pandemia recauchutada e escândalo político rotativo, o cidadão chega em dezembro com o sistema nervoso em frangalhos. E aí entra o salvador da pátria romano, vestido de toga e clichê, recomendando que você respire fundo e aceite o que não pode controlar. Belíssimo. Um conselho de dois mil anos servido como descoberta inédita.

Pergunta inconveniente, daquelas que estragam o jantar. Quem paga e quem recebe nessa transação espiritual? Paga o sujeito comum, que trabalha doze horas, vê metade do salário evaporar em tributo, a outra metade derreter na inflação, e ainda precisa comprar curso, livro de autoajuda, aplicativo de meditação e assinatura de portal premium para aprender a não enlouquecer com tudo isso. Recebe a mesma indústria que primeiro lhe vendeu o veneno e agora vende o antídoto. É o modelo de negócio mais antigo do mundo, aperfeiçoado pelos boticários medievais que envenenavam o poço e cobravam pela água limpa. A diferença é que hoje o boticário usa gravata, tem coluna em revista e cita estoicismo no LinkedIn.

O truque é elegante porque desloca a culpa. Você está mal porque não soube domar a própria mente, não porque o arranjo institucional inteiro foi desenhado para extrair de você até a última gota de tranquilidade. O imposto que sobe, o regulador que invade, a moeda que apodrece, o noticiário que histeriza, nada disso aparece no diagnóstico. O problema é sempre interno, sempre sua responsabilidade emocional, sempre uma questão de mindset. Convenientíssimo para quem opera as alavancas. O escravo que aprende a amar a corrente economiza chicote do feitor, e o feitor, agradecido, vende o manual de amor à corrente em edição encadernada.

Há, claro, sabedoria genuína na ideia de separar o que depende de você do que não depende. O problema é o uso que fazem disso. Transformaram um princípio de coragem viril, pensado para homens públicos que enfrentavam o caos de um império em ruínas, em terapia anestésica para súdito moderno engolir abuso sem reclamar. O original ensinava a agir com firmeza naquilo que cabia ao indivíduo, inclusive resistir à tirania quando necessário. A versão de banca de jornal ensina a aceitar passivamente que o Estado lhe tome três quartos do que produz e a sorrir agradecido pela esmola que sobra. Não é estoicismo, é resignação travestida, e há uma distância oceânica entre as duas coisas.

O leitor atento percebe a piada. Os mesmos veículos que recomendam serenidade em janeiro voltam a vender pânico em fevereiro, porque o pânico é o produto principal e a serenidade, o produto secundário, vendido para quem ficou intoxicado pelo primeiro. É circuito fechado, autoabastecido, lucrativo dos dois lados do balcão. Recomendar calma a quem você passou o ano inteiro apavorando é a versão jornalística do incendiário que vende extintor. Funciona porque o público raramente liga os pontos, e raramente liga os pontos porque está exausto demais, justamente porque consumiu o jornal o ano inteiro.

A blindagem mental verdadeira começa em outro lugar, bem mais incômodo. Começa em desligar a fonte do barulho, recusar o cardápio de tragédias diárias, parar de financiar com sua atenção e seu dinheiro a engrenagem que prospera com seu desespero. Começa em entender que a maior parte do que lhe roubam a paz não é acidente da vida moderna, é projeto, é interesse organizado, é gente ganhando para que você perca. O resto é toga emprestada e perfume caro sobre cadáver de coragem. A serenidade não está à venda na banca; está na decisão diária de não comprar mais o pânico que produzem para você.

Com informações da O Antagonista. A análise e opinião são do O Algoz.