Imagine a cena. O homem mais poderoso do planeta, comandante de legiões, dono do tesouro de meio mundo conhecido, senhor absoluto sobre a vida e a morte de milhões, acorda no meio da campanha militar, numa tenda gelada às margens do Danúbio, e em vez de planejar a próxima conquista ou contar moedas, pega um pedaço de papiro e escreve, para si mesmo, que a felicidade depende da qualidade dos pensamentos. Ninguém ia ler. Não havia público. Não havia aplauso. Era um sujeito brigando contra o próprio veneno, sabendo perfeitamente bem que o poder absoluto é uma toxina lenta que apodrece a alma antes de apodrecer o corpo.

Compare isso, se tiver estômago, com a paisagem moderna. Hoje, um deputado de terceiro escalão, daqueles que precisa do GPS para achar o próprio gabinete, contrata assessoria de imprensa para divulgar pensamento profundo de café da manhã. Ministro publica frase motivacional roubada de calendário de banco enquanto assina medida provisória que confisca mais um pedaço do salário do contribuinte. O imperador romano escrevia escondido para não virar tirano. O político brasileiro escreve em rede social para parecer iluminado enquanto, no escuro, assina o orçamento secreto. Quem paga a conta dessa encenação? O mesmo de sempre, o sujeito que acorda às cinco para pegar ônibus e descobrir que metade do salário já foi embora antes mesmo de cair na conta.

O detalhe que ninguém quer encarar é estrutural. Aquele imperador, com poder infinitamente maior do que qualquer presidente moderno, tinha uma consciência aguda de que o poder corrompe quem o exerce. Sabia que cada bajulador na corte era um veneno, que cada elogio servil era um convite ao desastre, que o trono era um lugar onde a verdade ia morrer primeiro. Por isso escrevia para si mesmo, à noite, na surdina. O político contemporâneo faz o oposto exato. Cerca-se de assessores que repetem o que ele quer ouvir, monta gabinete de comunicação para empacotar a mediocridade em prosa elevada, e usa o dinheiro alheio para financiar o próprio espelho. A diferença não é de grau, é de natureza. Um lutava contra a corrupção que o cargo provoca. O outro a recebe como salário, gratificação, jeton, verba de gabinete e cota parlamentar.

Há quem diga que isso é exagero, que o mundo evoluiu, que hoje temos instituições, freios, contrapesos, controle social, transparência. Sério? Pergunte ao caixa do supermercado quanto da sua nota fiscal vai para tributo. Pergunte ao pequeno empresário quantas horas por mês ele gasta apenas para entender o labirinto de obrigações acessórias que o Estado inventou para justificar o próprio exército de fiscais. As legiões romanas pelo menos protegiam fronteira contra bárbaro. O exército burocrático moderno protege fronteira contra o próprio cidadão que se atreve a empreender sem pedir licença. E o pior, faz isso com a serenidade de quem se acha virtuoso, porque aprendeu na universidade pública, paga por todos, que extrair riqueza alheia em nome do bem comum é sinônimo de civilização.

A frase do imperador, lida hoje, soa quase como uma provocação. A felicidade depende da qualidade dos pensamentos, dizia ele, num mundo em que ainda existia certa noção de que o caráter individual importava mais do que a circunstância. O recado moderno é o oposto. Sua felicidade depende do programa social, do auxílio, da bolsa, do subsídio, do crédito subsidiado, do salário-mínimo reajustado por decreto, da política pública desenhada por iluminado de Brasília que nunca pagou a própria conta de luz. Trocaram a busca interior pela dependência externa, e venderam isso como progresso. O cidadão deixou de ser responsável pelo próprio destino e virou cliente cativo do balcão estatal, que aliás cobra caríssimo pelo serviço, embora finja que está dando de graça.

No fim das contas, sobra a pergunta incômoda. O sujeito que governava o mundo antigo tinha humildade suficiente para se policiar na surdina. O sujeito que governa um municipiozinho de quinze mil habitantes acha que merece comitiva, jato, diária e palanque. A diferença não está na escala do poder, está na qualidade do pensamento, exatamente o ponto que o velho imperador tentava martelar contra a própria vaidade. Talvez por isso o texto dele sobreviveu dois milênios e o discurso do deputado de hoje some no esgoto do esquecimento antes mesmo de o microfone esfriar. Quem paga essa diferença toda? O contribuinte, claro, que financia a vaidade alheia com o suor próprio e ainda é chamado de ignorante quando reclama. Quem recebe? Os de sempre, a casta togada e ungida que descobriu, há muito tempo, que governar dá mais lucro do que trabalhar.

Com informações da O Antagonista. A análise e opinião são do O Algoz.