Madri, sábado, Puerta del Sol lotada de gente que um dia teve país. Não é manifestação folclórica de intercambista saudoso, é diáspora, palavra antiga para designar aquilo que sobra quando um governo decide que a nação é propriedade privada de uma quadrilha. A líder da oposição venezuelana sobe ao palanque e fala em reencontro, em reconstrução, em voltar para casa. Belas palavras, mas antes de se emocionar com a épica do retorno convém olhar para o que ficou do outro lado do Atlântico, porque toda reconstrução pressupõe um escombro, e todo escombro teve pedreiro.
A Venezuela não virou ruína por acidente meteorológico, não foi tsunami nem seca bíblica. Foi projeto, metódico, aplaudido em foro internacional, celebrado em universidade, abençoado por artista de carreira consolidada. Confiscaram fazenda em nome do povo, estatizaram petróleo em nome da soberania, imprimiram moeda em nome da justiça social, tabelaram preço em nome da dignidade, e no fim do cardápio ideológico o povo foi comer lixo literalmente, não metaforicamente, com câmera registrando. Quem pagou? O trabalhador que viu seu salário virar papel de embrulho em questão de semanas. Quem recebeu? A nomenclatura chavista, os generais da boliburguesia, os intermediários do câmbio preferencial, os sobrinhos que voavam com malas cheias, a rede de parasitas que sempre se forma ao redor do monopólio estatal como mosca ao redor do açougueiro.
É aqui que a conversa fica desagradável para quem passou duas décadas fingindo não ver. Porque a catástrofe venezuelana não foi segredo de Estado, foi transmitida ao vivo, em câmera lenta, com intervalo comercial. E durante todo esse tempo, jornalista brasileiro, cátedra latino americanista, ONG de direitos humanos seletiva e artista de capa de revista preferiram falar em bloqueio, em sabotagem imperialista, em contexto histórico, em qualquer coisa, menos na verdade elementar de que imposto é confisco, controle de preço é escassez decretada em lei, e imprimir dinheiro sem lastro é roubar o bolso de quem não tem como correr. O silogismo era óbvio desde o primeiro decreto, mas reconhecê lo exigia coragem que a classe comentarista latino americana simplesmente não tinha.
Agora a opositora fala em reconstrução e a palavra merece ser examinada com lupa, porque ela carrega um duplo fundo perigoso. Reconstruir o quê, exatamente? Se a proposta for refazer o mesmo Estado obeso com novos gestores, trocar a quadrilha vermelha por administradores tecnocratas de gravata azul, a tragédia apenas muda de sotaque. A prosperidade não nasce de palanque, nasce de propriedade privada garantida, de contrato respeitado, de moeda que não derrete no bolso, de juiz que não obedece ao presidente e de uma coisa tão simples e tão subversiva que parece provocação: deixar o sujeito trabalhar, produzir, trocar, acumular e transmitir seu patrimônio sem que um burocrata apareça a cada esquina cobrando pedágio em nome do bem comum.
A história dá a deixa, e ela é cruel com os ingênuos. Alemanha oriental depois do muro, Europa oriental depois do colapso soviético, Argentina depois de cada ciclo peronista, sempre a mesma armadilha: troca se o cartaz e mantém se a engrenagem. Quem recebeu privilégio do regime anterior se recicla como consultor do regime novo, os ministérios mudam de nome, os cargos comissionados mudam de partido, e o coitado do comerciante que sobreviveu à tempestade continua pagando a conta da festa alheia. Reconstrução sem redução drástica de Estado é apenas o próximo ciclo do mesmo golpe, executado com polidez de embaixada.
Por isso o discurso de Madri precisa ser lido com ouvido fino e estômago treinado. Que ela volte, que derrote o tirano nas urnas ou no cansaço do regime, ótimo, aplauso de pé. Mas a pergunta que deveria presidir cada minuto da transição é a mais antiga e a mais negligenciada de todas: quem paga e quem recebe. Enquanto a resposta for o cidadão pagando e a casta recebendo, sob qualquer bandeira, com qualquer retórica, em qualquer idioma, não haverá reconstrução, haverá apenas uma nova geração de exilados esperando o próximo comício, dessa vez talvez em Lisboa, ou em Miami, ou em qualquer praça onde ainda se possa pronunciar a palavra liberdade sem pedir autorização prévia.
Com informações da Revista Oeste. A análise e opinião são do O Algoz.