Um homem em Washington anuncia, com a naturalidade de quem comenta o placar de um jogo, que a marinha de um país soberano está "completamente destruída" e que qualquer embarcação que se aproxime de uma rota marítima internacional será eliminada. Não há declaração de guerra. Não há resolução do Congresso. Não há sequer uma justificativa jurídica que resista a dez minutos de escrutínio. Há apenas a voz de um presidente que decidiu, sozinho, qual pedaço do planeta pertence à jurisdição americana. O Estreito de Ormuz fica no Golfo Pérsico, a uns doze mil quilômetros de Washington, e mesmo assim o xerife já chegou ao saloon, revólver na mão, decretando as regras.

O mecanismo é antigo e funciona sempre da mesma forma: o Estado identifica um inimigo conveniente, ergue em torno dele uma narrativa de perigo existencial, mobiliza recursos que não são seus para uma operação que não será custeada por quem a decide, e distribui os contratos para quem financia as campanhas. A Marinha americana que patrulha o Ormuz não opera de graça. Cada porta-aviões que cruzou aquelas águas nas últimas décadas foi abastecido com dinheiro confiscado do contribuinte americano, e os mísseis que eventualmente afundarão alguma coisa foram comprados de empresas cujos acionistas não dormem em porta-aviões. Siga o dinheiro e você sempre encontra alguém muito bem vestido no fim da trilha.

Há uma contradição que a imprensa engole sem mastigar: os mesmos governos que pregam a soberania das nações, a autodeterminação dos povos, o direito internacional como pedra angular da civilização, são os primeiros a bloquear estreitos, a decretar sanções unilaterais e a afundar navios sem julgamento quando os interesses são convenientes. O Estreito de Ormuz não é território americano por nenhum tratado, por nenhuma conquista formal, por nenhuma decisão de nenhuma corte. É território americano porque o império diz que é, e o império tem porta-aviões. A diferença entre isso e o que os romanos faziam nas províncias é apenas a qualidade dos uniformes.

Observe com atenção o que a ameaça produz economicamente antes de debater se ela é justa ou injusta. Toda tensão no Ormuz faz o preço do petróleo reagir, e toda reação no preço do petróleo tem vencedores e perdedores muito específicos. Os perdedores são, como sempre, os que pagam combustível na bomba, os que recebem a conta do frete embutida em tudo que compram, os países pobres que importam energia e exportam commodities. Os vencedores são as petrolíferas que vendem o barril mais caro, os fundos que apostaram na alta, e os fabricantes de armamento que já sabem que a demanda vai aumentar em toda a região. A geopolítica é, no fundo, um mercado de futuros para iniciados.

Trump pode estar mentindo sobre a extensão dos danos à marinha iraniana, pode estar exagerando, pode estar negociando, pode estar sincero. Nenhuma dessas hipóteses altera a estrutura do problema. A estrutura é a seguinte: uma potência militar decide unilateralmente quem pode e quem não pode navegar por uma rota que conecta produtores a compradores de energia, e faz isso sem nenhuma delegação legítima da comunidade de nações, sem nenhum mandato que não seja a força. Chame isso pelo nome que merecer. Não é democracia. Não é ordem internacional. É o mesmo argumento que todo oligopólio usa para justificar o controle da praça: a violência administrada com relações-públicas competentes.

No fim, a cena se repete com uma regularidade que deveria envergonhar qualquer analista que ainda finge surpresa. Um político que enfrenta turbulências internas aponta uma ameaça externa. A ameaça externa cresce na imprensa até se tornar o único assunto. Os contratos militares são assinados. A tensão sobe. O contribuinte paga a conta. E o povo que mora entre os dois impérios, o que está com o azar de habitar o teatro das operações, esse recebe os estilhaços. Quem paga? Você, ele, qualquer um que não tenha um lobista em Washington. Quem recebe? Esse, todo mundo sabe onde encontrar: é o sujeito de terno que sorri para as câmeras enquanto o avião pousa em algum hangar privado.

Com informações do Poder360. A análise e opinião são do O Algoz.