A notícia chega com a naturalidade de quem já se acostumou com o absurdo. A Marinha dos Estados Unidos abriu fogo contra uma embarcação iraniana, tomou o navio à força e, para coroar a cena, anunciou que a carga segue sujeita às sanções do Departamento do Tesouro. Traduzindo do idioma oficial para o português cru: homens armados do governo mais poderoso do planeta atiraram em marinheiros estrangeiros, apreenderam propriedade alheia e agora vão decidir, em um gabinete refrigerado em Washington, quem fica com o butim. No século dezesseis isso tinha nome, e o nome era corso. A única diferença é que os piratas de antigamente tinham a decência de hastear uma bandeira negra, enquanto os de hoje preferem o conforto moral de uma bandeira com estrelas.
Pergunte ao contribuinte americano médio se ele autorizou a operação. Pergunte se ele sabe qual era a carga, para onde ia, quem era o comprador, qual foi o custo do combustível dos destróieres, quanto custou a munição gasta, quanto vai custar o armazenamento do navio apreendido. O silêncio que virá como resposta é a prova cabal de que o império não é um negócio do povo, é um negócio do complexo militar, das empresas de logística que vão leiloar o óleo confiscado, dos escritórios de advocacia de Washington que vivem de redigir pareceres sobre compliance de sanções. Quem paga é o sujeito que acorda às cinco da manhã em Ohio para pagar imposto de renda. Quem recebe é o contratista do Pentágono, o banco que administra o ativo bloqueado e o burocrata que sobe de cargo toda vez que uma crise é inventada.
O argumento da segurança nacional é o cheque em branco mais antigo da democracia moderna. Basta pronunciar as palavras mágicas e toda fronteira moral desaparece, toda lei internacional vira letra morta, todo princípio de propriedade privada é suspenso em nome de uma ameaça que nunca é demonstrada, apenas anunciada. Se um cidadão qualquer resolvesse abordar o caminhão do vizinho na estrada porque desconfia que o conteúdo desagrada seus valores, iria preso no mesmo dia e com razão. Quando o Estado faz a mesma coisa em escala oceânica, chamam de política externa robusta. A lógica é impecável na sua sem vergonhice: o monopolista da violência dita as regras do jogo, arbitra as partidas e ainda distribui as medalhas no fim. Não existe tribunal acima dele porque ele financia os tribunais.
E as sanções, esse instrumento travestido de pacifismo, merecem capítulo à parte. Vende se a ideia de que bloquear o comércio é uma alternativa civilizada à guerra. É mentira, e mentira conveniente. Sanção é guerra econômica contra civis, é cerco medieval com tecnologia moderna, é fome planejada em planilha do Excel. A diferença é que a bala mata em segundos e a sanção mata em meses, sem aparecer no telejornal. Quem lucra com esse regime não é o povo americano nem o povo iraniano, são as redes de contrabando que surgem para driblar o bloqueio, os bancos suíços que cobram comissão para lavar o petróleo clandestino, as consultorias que vendem estudos sobre como escapar do cerco. O mercado negro é filho legítimo da regulação estatal, sempre foi.
Há ainda o detalhe delicioso de que o mesmo governo que apreende carga iraniana em alto mar se declara campeão da liberdade de navegação. É o equivalente a um ladrão sindicalizado exigindo respeito à propriedade privada do cofre que acabou de estourar. A incoerência seria motivo de riso se não fosse motivo de luto, porque cada operação dessas reforça um precedente que outros impérios vão usar amanhã, com a tranquilidade de quem aprendeu com o mestre. Quando a China fizer o mesmo no Mar do Sul, quando a Rússia fizer o mesmo no Báltico, a indignação oficial de Washington vai soar como a do cafetão que descobriu que tem concorrência no quarteirão.
Resta a pergunta que abre e fecha qualquer análise honesta sobre o tema. Quem paga esse teatro de força, esse pirotécnico despudorado exibido no oceano para consumo interno às vésperas de mais um ciclo eleitoral? Paga o trabalhador americano via imposto, paga o consumidor global via preço do barril, paga o iraniano pobre que já não tem remédio nos hospitais por causa do bloqueio. E quem recebe? Recebe quem sempre recebeu, a casta que faz da guerra um modelo de negócio, do medo uma política pública e da bandeira um biombo para esconder a caixa registradora. O navio é pretexto. O verdadeiro saque acontece em terra firme, nos gabinetes, e nenhuma câmera está filmando.
Com informações da Jovem Pan. A análise e opinião são do O Algoz.