Há uma cena que se repete na história política latino-americana com a regularidade de um vício, e ela tem sempre o mesmo roteiro: o aspirante ao poder viaja ao norte, aperta a mão do americano de plantão, volta com a foto emoldurada e anuncia que o destino de sua terra acabou de mudar. O que varia é o nome do inimigo. Às vezes são os comunistas. Às vezes são os terroristas. Hoje, com a eficiência de quem juntou os dois, são os narcoterroristas. André Marinho, pré-candidato ao governo do Rio de Janeiro pelo Novo, escolheu a versão contemporânea do ritual e saiu da reunião com o vice-presidente dos Estados Unidos brandindo a promessa de uma cruzada conjunta contra os bandidos que assombram o estado mais famoso do país. A pergunta que ninguém faz na euforia da foto é a mais simples de todas: quem financia essa guerra e quem lucra com ela?

O negócio da guerra ao crime, quando examinado sem a névoa do heroísmo retórico, revela uma estrutura de incentivos que qualquer contador desonesto reconheceria. O Estado não combate o crime organizado porque quer eliminá-lo; combate-o porque precisa dele. Sem o inimigo, não existe orçamento extraordinário, não existe aparato de segurança em expansão, não existe justificativa para a câmera no poste, para o helicóptero sobrevoando o morro, para o contrato de fornecimento de coletes e armamentos e viaturas e drones e sistemas de monitoramento que custam o que custam e beneficiam quem beneficiam. A indústria da segurança pública não é um remédio para o crime; é uma simbiose com ele. Quando o candidato anuncia guerra, o fornecedor de guerra já está com a proposta na gaveta.

Marinho é do Novo, partido que reivindica a herança da liberdade individual e do Estado mínimo. É, portanto, fascinante observar com que desenvoltura um representante dessa tradição abraça a retórica da força máxima, da aliança militar com a maior potência do planeta e da promessa de campanha armada contra um inimigo cujos contornos, convenientemente, nunca são definidos com precisão suficiente para que o projeto termine. "Narcoterrorismo" é uma categoria elástica. Estica para o lado que for preciso. É o tipo de palavra que, nas mãos certas, legitima qualquer coisa, financia qualquer estrutura e dura quantas décadas forem necessárias. Os americanos sabem disso melhor do que ninguém, pois inventaram a versão moderna do produto em 1971 e ainda estão pagando a conta, em dólares e em corpos.

O encontro com JD Vance tem valor simbólico que não se deve subestimar, e Marinho certamente não o subestima; por isso postou a foto. O endosso americano, mesmo informal, mesmo fotográfico, funciona no imaginário político brasileiro como um selo de qualidade importado. Não importa que Washington endosse candidatos com a mesma promiscuidade com que endossa acordos comerciais; o que importa é a imagem, a associação, a sensação de que aquele homem tem acesso a um andar que a maioria não tem. É o mesmo mecanismo que fez ditadores militares se sentirem legitimados por apertos de mão em Washington e que faz governadores democraticamente eleitos tratarem a aprovação gringa como se fosse uma benção apostólica. O Rio de Janeiro merece um governador. A pergunta é se merece um que apresenta as credenciais pedindo aprovação no exterior antes de tê-las pedido dentro do estado.

E então chegamos ao ponto onde a lógica não perdoa ninguém. Se a premissa é que o Rio está tomado pelo narcoterrorismo, e se a conclusão é que a solução exige uma aliança com os Estados Unidos, a pergunta que emerge do silogismo é brutal: o que os Estados Unidos ganham com isso? Generosidade não é uma característica histórica das grandes potências, e JD Vance não voou para reunião com pré-candidatos brasileiros movido por preocupação humanitária com as favelas cariocas. Há interesses em jogo, há alinhamentos em negociação, há geometria de influência sendo desenhada. O candidato que vai à foto certamente já sabe o preço do frame. O eleitor, como de costume, vai descobrir depois que assinar a procuração.

No fim, a equação é simples, como todas as equações de poder costumam ser quando se remove a decoração. Um político precisa de visibilidade, de um inimigo legível e de um padrinho que valide a narrativa. Um Estado precisando de expansão de orçamento de segurança precisa de um inimigo permanente que nunca seja derrotado de vez. Uma potência estrangeira precisando de aliados alinhados precisa de candidatos gratos. Os três encontraram um ao outro em uma foto postada no X. Quem paga é o contribuinte fluminense que, antes mesmo de votar, já foi incluído na conta. Quem recebe é o arranjo inteiro, sorrindo para a câmera.

Com informações de O Antagonista. A análise e opinião são do O Algoz.