Mario Frias está internado em UTI. Obstrução de vasos sanguíneos no abdômen, diz o comunicado médico divulgado nesta terça-feira. Desejo-lhe, como a qualquer ser humano, pronta recuperação. Dito isso, a coluna não existe para mandar flores, existe para fazer perguntas que ninguém faz. E a primeira é sempre a mesma: quem pagou e quem recebeu?
O sujeito era ator de televisão. Razoável, não memorável. O tipo de rosto que você jura ter visto em alguma novela das seis, mas não lembra qual. Até que descobriu, como tantos antes dele, que o caminho mais curto entre um salário medíocre e uma boquinha generosa passa por Brasília. Bastou trocar o texto decorado pelo texto gritado, a câmera da Globo pela câmera do celular, e o personagem fictício pelo personagem político. A Secretaria Especial de Cultura lhe caiu no colo como um presente de Natal embrulhado com dinheiro público. E ali, com orçamento de centenas de milhões à disposição, nosso galã aposentado encontrou seu verdadeiro papel: o de burocrata que confunde gestão cultural com militância digital.
Lembremos o que a memória curta da política brasileira tenta apagar. Como secretário, Frias protagonizou uma coleção de episódios que, em qualquer país sério, renderiam no mínimo um inquérito e no máximo uma comédia. Viagens internacionais custeadas pelo contribuinte cuja justificativa cultural era, digamos, criativa. Uma ida a Nova York que rendeu mais fotos em restaurante do que acordos de cooperação. Uso da Lei Rouanet, aquele mecanismo pelo qual o Estado obriga o contribuinte a financiar a arte que o burocrata escolhe, como arma retórica contra adversários, enquanto os amigos do rei seguiam mamando na mesma teta que ele fingia combater. A hipocrisia não é um defeito do sistema, é o sistema funcionando como projetado.
Há algo de tragicamente instrutivo no fato de que um homem que passou anos gritando contra o establishment agora dependa de uma UTI provavelmente equipada com recursos que só existem porque alguém, em algum momento, investiu capital real em medicina real, não em decreto, não em portaria, não em live de madrugada. O mercado produz o tomógrafo, o cirurgião, o medicamento. O Estado produz o cargo, a sinecura, o comunicado oficial. Quando o corpo falha, ninguém liga para o gabinete pedindo socorro. Liga para o hospital. E o hospital funciona não porque um secretário de cultura assinou um papel, mas porque médicos estudaram duas décadas e empreendedores arriscaram capital onde burocratas só arriscam a reputação alheia.
O padrão se repete com a regularidade de um relógio suíço. Ator vira político, político vira celebridade de nicho, celebridade de nicho vira réu ou paciente, e o contribuinte, esse eterno pagador de conta alheia, assiste a tudo do sofá, financiando involuntariamente cada ato da peça. Frias não inventou esse roteiro. Ele apenas o interpretou com o talento limitado que sempre teve. Antes dele vieram dezenas, depois dele virão centenas, todos repetindo a mesma cena: pegar o dinheiro de quem trabalha, redistribuí-lo entre quem aplaude, e chamar isso de serviço público. A pergunta que fica, como sempre, não é se Frias vai se recuperar. É quanto nos custou, em reais, cada capítulo dessa novela de quinta categoria que ele protagonizou em Brasília. E se alguém, algum dia, vai ter a decência de apresentar a conta.
Com informações do Poder360. A análise e opinião são do O Algoz.