A notícia chega com a delicadeza de um soco na nuca: meio século depois que os garimpeiros levantaram acampamento e sumiram com a sacola pesada, a Mata Atlântica ainda exibe mercúrio no solo, nos microrganismos, na cadeia inteira que sustenta a floresta. Cinquenta anos. Duas gerações inteiras nasceram, cresceram, envelheceram e morreram, e o metal continua lá, fiel como cobrador de aluguel, lembrando que toda festa privada de extração tem ressaca pública pagável em décadas.
Repare na engenharia perfeita do arranjo. O sujeito chega, escava, separa o ouro com mercúrio porque é mais barato que qualquer outro método, embolsa o lucro, vende o metal para um intermediário que vende para uma joalheria que vende para um nobre cidadão de bem usar no dedo da esposa. Pronto, o ciclo econômico está fechado, todo mundo agradeceu, todo mundo lucrou. Só que falta uma rubrica no balanço: o veneno deixado para trás. Essa, ninguém contabiliza, ninguém paga, ninguém sequer assina embaixo. É a famosa privatização dos lucros e socialização do passivo, repetida desde que o primeiro esperto descobriu que jogar lixo no terreno do vizinho sai mais em conta que tratar o próprio.
E aqui entra o personagem hilário da história: o Estado fiscalizador, sempre presente em comunicados oficiais e sempre ausente quando o caminhão sai com o minério. O mesmo poder público que hoje multa o pequeno produtor por podar uma árvore na sua própria terra foi exatamente quem cochilou enquanto toneladas de mercúrio escorriam pelos rios. A repressão chega depois, claro, na forma de zoneamento, de ICMS verde, de regulação ambiental que sufoca o produtor honesto e cria reserva de mercado para o grande operador licenciado, que tem advogado, lobista e amigo no ministério. O garimpeiro virou bode expiatório retórico, enquanto o sistema que tornou o garimpo lucrativo permanece intacto.
Há uma lógica antiga, simples como tabuada, que explica tudo isso: quando ninguém é dono de nada, todo mundo é estuprador da terra. A floresta era de todos, ou seja, de ninguém. O rio era de todos, ou seja, de ninguém. Quando uma propriedade tem dono claro, com nome, sobrenome e responsabilidade jurídica, qualquer agressão tem endereço para a indenização. Quando a propriedade é coletiva, abstrata, gerida por burocrata que troca de cadeira a cada quatro anos, o crime ambiental vira externalidade anônima. É a tragédia previsível de tudo aquilo que se declara pertencente ao povo: acaba pertencendo aos espertos que sabem extrair antes que os outros notem.
O detalhe macabro é que o mercúrio não lê manchete, não respeita prazo prescricional, não se comove com discurso ambientalista de palanque. Ele simplesmente fica, bioacumula, sobe a cadeia alimentar e um dia aparece no peixe que o pescador vende na feira, no leite da vaca que pastou no capim contaminado, no neto do garimpeiro que nunca viu uma pepita na vida e herdou apenas o passivo. Enquanto isso, o ouro extraído ali continua circulando em algum cofre, em alguma aliança, em algum lingote de banco central, valorizado, intocado, anônimo. O metal nobre viajou. O metal venenoso ficou. Esse é sempre o trato quando o lucro é privado e o estrago é coletivo: o vencedor leva tudo e o perdedor nem sabia que estava jogando.
Pergunte de novo, agora com calma: quem pagou pelo ouro daquele garimpo? Não foi quem comprou a joia. Não foi quem refinou o metal. Não foi o intermediário, não foi o garimpeiro que sumiu, não foi o fiscal que olhou para o lado. Pagou a floresta, pagaram os ribeirinhos, pagam ainda hoje os microrganismos que sustentam o solo, pagará o cidadão urbano que um dia vai engolir o passivo na forma de imposto ambiental, de programa governamental de recuperação, de fundo internacional gerido por ONG bem relacionada. O ouro tem dono. O veneno é nosso.
Com informações da Poder360. A análise e opinião são do O Algoz.