Quatro dias de buscas, um corpo no rio, e o roteiro acabou. Matt Brown tinha 43 anos e carregava no currículo a participação numa das franquias mais lucrativas da televisão de realidade americana, aquela que vendeu ao público a fantasia de uma família vivendo nos confins do Alasca como se fosse possível voltar ao século dezenove com câmeras de alta definição filmando cada respiração. O Rio Okanogan, em Washington, não assistia ao programa. Limitou-se a fazer o que rios fazem desde antes de existir contrato de exclusividade com emissora.

Convém olhar para o arranjo antes de chorar pelo defunto. O produto chamado Alaskan Bush People rendeu milhões em anunciantes, mercadoria licenciada, temporadas renovadas, episódios especiais e a tradicional fila de tabloides que se alimenta da desgraça alheia como urubu de rodovia. Quem pagou foi o espectador, hipnotizado pela mentira pitoresca de uma família primitiva morando à margem do mundo moderno. Quem recebeu foi a produtora, a rede, os executivos, os agentes e, em parcela menor e mais cruel, os próprios Brown, transformados em personagens de si mesmos até esquecerem qual era o original e qual era a cópia editada.

Porque é disso que se trata. A televisão de realidade é a indústria que descobriu como terceirizar o trauma. Você pega gente real, oferece dinheiro, fama e a ilusão de protagonismo, filma os piores momentos da existência humana e vende o resultado como entretenimento familiar. Quando o personagem desaba, e desabam quase todos, a produção lava as mãos com a desculpa de que aquilo era a vida deles, eles assinaram, ninguém obrigou. É o velho truque do contrato voluntário usado para encobrir uma relação completamente assimétrica entre quem detém o capital e quem entrega a alma diante das câmeras.

Matt já vinha colecionando capítulos sombrios fora da edição oficial. Internações, vícios, afastamento do elenco, a trajetória clássica de quem foi cuspido pela máquina depois de ter sido devidamente ordenhado. A família que a televisão pintava como rude e indomável, capaz de domar o gelo polar com as próprias mãos, mostrou-se tão vulnerável quanto qualquer aglomerado humano exposto ao álcool, às substâncias e à corrosão lenta da fama mal digerida. O Alasca televisivo era um cenário; a tragédia, sempre foi a parte mais real do programa.

Não há novidade na fórmula. Roma já fazia isso no Coliseu, com a vantagem de ser mais honesta a respeito do propósito, ninguém saía da arena fingindo que aquilo era um documentário sobre a condição humana. A modernidade refinou o método, trocou o leão pela câmera, o gladiador pelo aspirante a celebridade, e cobrou ingresso na forma de assinatura mensal e bloco comercial. O público aplaude, a plateia se diverte, o ator morre, e a temporada seguinte já está em pré-produção com um substituto disposto a apanhar pelo mesmo cachê.

Resta a pergunta que importa, aquela que ninguém faz quando o cadáver ainda está quente e os obituários competem por cliques. Quem lucrou com a exposição prolongada de um homem visivelmente em colapso? Quem assinou os cheques que financiaram a degradação convertida em audiência? E quem, agora, vai capitalizar o velório, transformando o luto em episódio especial, em homenagem comovida, em coletânea dos melhores momentos do falecido? A resposta é sempre a mesma, e nunca é o morto.

Com informações da Gazeta Brasil. A análise e opinião são do O Algoz.