Um navio com destino às Canárias registra casos de hantavírus e, antes que o leitor pergunte o que é isso, a máquina já está rodando a todo vapor, manchete vermelha, especialista convocado, ministério em alerta, agência reguladora batendo no peito. O próprio imunologista chamado para acalmar os ânimos diz o óbvio que qualquer manual de microbiologia dos anos oitenta repete: o bicho é velho conhecido, transmissão entre humanos é praticamente nula, contágio se dá por excrementos de roedor em ambiente fechado. Tradução para o português dos mortais: nada que justifique uma vírgula da histeria que se tenta vender.

E aqui está a pergunta que ninguém faz, porque fazer a pergunta certa é o começo do fim do espetáculo. Quem paga e quem recebe quando um caso pontual num navio se transforma em assombração continental? Paga o pequeno empresário que vê o turismo encolher, paga o trabalhador que terá novas taxas portuárias embutidas no preço do peixe, paga o contribuinte que custeará protocolos de emergência redigidos às pressas por gente que ganha por hora. Recebe a indústria do alarme, recebe a burocracia sanitária que justifica seu orçamento inflado, recebem os fornecedores credenciados de insumos hospitalares, recebem os consultores oficiais que aparecem em rede nacional vendendo serenidade depois de terem vendido, na semana anterior, o desespero.

O truque é antiquíssimo, tão velho quanto os áugures romanos lendo vísceras de galinha para justificar o que o senado já tinha decidido. Cria-se a ameaça, fabrica-se o pavor, e na sequência aparece o salvador togado oferecendo a solução que, por uma feliz coincidência, exige mais poder, mais dinheiro e menos liberdade. Foi assim com a febre amarela urbana no início do século passado, quando vacinação obrigatória virou pretexto para derrubada de cortiços e especulação imobiliária no Rio. Foi assim em cada surto desde então. A doença passa, os decretos ficam, o orçamento permanente da agência fica, o cidadão fica com menos uma liberdade no bolso e nem percebe que foi furtado.

Observe a coreografia com olhos secos. O médico diz que não há motivo para pânico, mas a manchete grita pânico, e o leitor médio absorve a manchete, não a ressalva. Esse desencontro não é acidente, é desenho industrial. O medo é insumo barato, abundante, renovável, e converte-se em audiência, em verba publicitária estatal, em justificativa para o próximo pacote regulatório. Cada surto é uma safra. Cada safra alimenta a casta que vive do sobressalto alheio, aquela mesma que, se amanhã o mundo ficasse subitamente saudável e tranquilo, pediria asilo político por desemprego estrutural.

O cidadão que ainda raciocina precisa treinar o reflexo contrário ao da manada. Quando todos correm na mesma direção berrando a mesma palavra, é hora de parar, sentar e perguntar quem escreveu o roteiro. Hantavírus num navio rumo às Canárias é notícia de rodapé, item de boletim epidemiológico técnico, assunto para autoridade portuária resolver com desinfecção e fim de papo. Tudo que vier além disso é encenação, e toda encenação tem produtor, tem patrocinador, tem bilheteria. A diferença entre o súdito e o homem livre está exatamente aí: o primeiro compra o ingresso, o segundo pergunta quem está faturando com a função.

Com informações da Revista Oeste. A análise e opinião são do O Algoz.