O concurso 2.999 da Mega-Sena fechou sem ganhador na quinta-feira, com as dezenas 09, 24, 26, 38, 45 e 58 deixando milhões de apostadores rasgando canhotos e jurando que da próxima vez acertam. O prêmio acumulou e promete chegar aos cem milhões de reais no sábado. A imprensa vende a narrativa de sempre, o brasileiro humilde que pode virar a mesa com dois reais e cinquenta, a loteria como último elevador social de um país onde a escada normal foi serrada pelo governo. O que ninguém conta, porque daria menos manchete, é que o verdadeiro ganhador do concurso 2.999 já foi premiado antes mesmo da primeira bola cair no globo.

Olhe a estrutura do volante e não o volante. De cada real apostado, pouco mais de quarenta e três centavos voltam como prêmio. O restante vai para um cardápio de destinações que nenhum apostador lê, porque se lesse talvez pensasse duas vezes. Seguridade social, esporte, cultura, segurança pública, fundo penitenciário, Tesouro Nacional, imposto de renda sobre a própria premiação. É a coisa mais criativa já inventada por um monopólio, cobrar imposto sobre a esperança e ainda chamar isso de voluntário. O cassino é do Estado, a banca é do Estado, as regras são do Estado, e quando alguém ganha, o Estado cobra imposto sobre o ganho. A casa sempre vence, e a casa aqui tem CNPJ terminado em 0001-91.

A ironia é que o jogo seria crime se fosse operado por qualquer cidadão na esquina. Monte uma bolsa de apostas no bairro, reparta prêmios de forma honesta, e a polícia federal bate na sua porta antes do terceiro concurso. A mesma conduta, quando praticada pelo monopolista de farda e gravata, vira política pública louvável, com propaganda em horário nobre e artista global fazendo a chamada. A diferença entre contravenção e serviço essencial é exclusivamente quem opera, não o que se opera. Se a atividade é imoral na mão do particular, é imoral na mão do governo. Se é legítima na mão do governo, libere para todo mundo. Terceira opção não existe fora dos manuais de hipocrisia cívica.

Pense na lógica do sonho vendido nas tevês. Cem milhões de reais parecem a fortuna de um faraó, e são, até você lembrar que o governo federal gasta isso em menos de cinco minutos de expediente, somando previdência, juros da dívida, emendas de relator e penduricalhos do Judiciário. O prêmio que faria o apostador mudar de classe social de uma vida inteira é, na escala do Estado, troco de cafezinho. E ainda assim o aposentado que recebe um salário mínimo enfrenta fila de madrugada na lotérica apostando o pouco que sobrou depois dos descontos, enquanto o servidor de cúpula recebe auxílio-paletó, auxílio-livro, auxílio-moradia, auxílio-alimentação e aposentadoria integral sem ter comprado nenhum volante. Quem arrisca ganha quarenta e três centavos por real. Quem administra o risco dos outros ganha o resto da folha.

O pior nem é o tamanho do imposto embutido, é a teologia da coisa. A loteria é confessionário laico, a paróquia da esperança estatal, onde o fiel deposita a oferenda semanal convicto de que a roda da fortuna gira sozinha. Não gira. A roda é engrenagem, a engrenagem tem dono, e o dono cobra pedágio em cada volta. Quando um povo aceita que a única chance honesta de enriquecer é o sorteio, é porque já aceitou antes que todas as outras chances foram confiscadas pela carga tributária, pela burocracia que estrangula o pequeno negócio, pela inflação que come o salário no escuro e pelo alvará que custa mais caro do que o capital inicial. A loteria prospera onde o trabalho foi sabotado. Não é sintoma de sorte, é sintoma de país estrangulado.

Então aposte no sábado, se quiser, é o seu dinheiro e a defesa da propriedade privada inclui o sagrado direito de torrá-la em superstição numérica. Só não chame isso de oportunidade. Chame pelo nome correto, que é tributo disfarçado de esperança, extraído com consentimento voluntário de uma população que foi condicionada a acreditar que só muda de vida quem é sorteado, nunca quem é deixado em paz para trabalhar. A pergunta que abre e fecha qualquer concurso é sempre a mesma, e vale também para o 3.000. Quem paga? O apostador, todo santo sábado. Quem recebe? Adivinhe.

Com informações da Gazeta Brasil. A análise e opinião são do O Algoz.