Saiu o resultado do concurso 3006 da Mega-Sena neste sábado em São Paulo, com as dezenas 25, 42, 45, 48, 50 e mais uma fechando a sequência, e ninguém acertou. O prêmio acumulou para terça-feira, agora estimado em R$ 52 milhões, e por todo o país a fila volta a se formar nos guichês lotéricos com aquela esperança plástica que substituiu o terço na vida do brasileiro médio. A manchete vende o sonho. O sonho vende o bilhete. O bilhete sustenta a engrenagem. E a engrenagem, claro, não é a do apostador.

Convém ler a letra miúda da prosperidade alheia. De cada real que entra no volante, mais ou menos a metade jamais será distribuída em prêmio. Vai para repasses sociais carimbados, encargos administrativos, custos da operadora estatal e, no fim do funil, para o Tesouro Nacional sob o nome técnico de imposto de renda na fonte sobre o ganho do sortudo. Traduzindo do dialeto burocrático para o português dos mortais: antes mesmo de a bolinha rolar, o Estado já ganhou. O cidadão joga contra uma banca que cobra ingresso, fica com porcentagem fixa da rodada e ainda tributa o vencedor. É um cassino em que o crupiê é também o legislador, o fiscal e o destinatário final.

Repare na elegância do golpe. Imposto explícito gera revolta, passeata, voto de protesto. Loteria, não. A mesma figura social que xinga o leão da Receita compra fé estatística aos sábados com sorriso no rosto, convencida de que está se divertindo. Eis a obra-prima da propaganda oficial: transformar a extração compulsória em entretenimento voluntário. O confisco virou evento. O imposto virou esperança. E como toda boa mágica, funciona porque o público quer ser enganado. Lembremos das antigas indulgências vendidas em praça pública, com a diferença de que aquelas pelo menos prometiam algo no além; estas se contentam com uma terça-feira e cinquenta e dois milhões nominais que ninguém vai ver.

Há ainda o argumento moral, sempre repetido pelos beneficiários do esquema, de que a arrecadação financia esporte, cultura, segurança, educação, saúde e mais um catálogo de virtudes públicas. Façamos o silogismo simples. Se o Estado já recolhe tributos para custear essas mesmas finalidades, e ainda assim depende da loteria para custeá-las, ou os tributos são insuficientes, ou são mal aplicados, ou as duas coisas. Em qualquer das hipóteses, a loteria não é solução, é confissão. Confissão de que a casa não fecha as contas no expediente normal e precisa do bolso do pobre na esquina, em horário de varejo, vestida de festa.

O mais delicioso é a estatística do azar, que ninguém divulga em letra grande no cartaz. A chance de acertar as seis dezenas é de uma em cinquenta milhões e pouco. Apostar uma vez por semana durante toda a vida adulta dá ao cidadão a probabilidade aproximada de ser atingido por um raio enquanto encontra um trevo de quatro folhas. Mas o vendedor do sonho sabe que ninguém compra bilhete fazendo conta; compra fazendo orações. E é exatamente nessa fresta entre a aritmética fria e o desejo quente que o monopólio estatal montou sua tenda, com luzes piscantes e jingle alegre, faturando bilhões anuais de gente que jura, de boa fé, estar ali apenas tentando a sorte.

Volte então à pergunta inicial, a única que importa. Quem paga? O trabalhador, o aposentado, o motorista de aplicativo, a faxineira, o desempregado que comprou o bilhete em vez de dois pães. Quem recebe? A operadora estatal com sua estrutura inchada, os fundos carimbados que alimentam a máquina, o Tesouro através do imposto sobre o prêmio e, num distante último lugar, talvez um único apostador anônimo que, se aparecer, ainda vai descobrir que metade do que sonhou já tinha dono antes de ele preencher o volante. Cinquenta e dois milhões na vitrine, casa sempre ganha no caixa. O resto é folclore.

Com informações da Gazeta Brasil. A análise e opinião são do O Algoz.