A cena se repete há trinta anos com a mesma coreografia. O governo anuncia um sorteio especial, a imprensa multiplica a manchete, e milhões de brasileiros formam fila para depositar dois reais na esperança de virar a vida do avesso. Trezentos milhões, dizem. Número redondo, propaganda gratuita, fila na esquina. Ninguém pergunta o óbvio: se a aposta paga prêmio tão polpudo, quem é o sócio invisível dessa festa? A resposta está impressa no verso do bilhete, em letras tão pequenas que ninguém lê, mas a aritmética é cruel. De cada real apostado, quase metade evapora antes mesmo do globo girar, repartida entre a casa que organiza o jogo, programas sociais que o cidadão já paga em outros impostos, e a famosa rubrica do custeio, que é o eufemismo educado para a folha de pagamento de quem opera o cassino oficial.
A Mega-Sena é o tributo mais perfeito já inventado pela engenharia fiscal brasileira. Perfeito porque é voluntário. Perfeito porque o contribuinte agradece. Perfeito porque, em vez de protestar contra a alíquota, ele faz fila debaixo de sol de quarenta graus para pagá-la. Nenhum ministro da Fazenda, nem o mais hábil, conseguiu jamais bolar um imposto em que o pagador sai sorrindo e pedindo recibo. A loteria conseguiu. E conseguiu porque vende algo que nenhum tributo convencional vende: a fantasia da fuga. Você paga ao monopólio estatal para sonhar que um dia não precisará mais pagar ao monopólio estatal. É o equivalente moderno das indulgências vendidas nas catedrais medievais, com a diferença de que o céu prometido aqui tem piscina, lancha e isenção de fila no banco.
Repare na geografia do hábito. Os bairros nobres jogam pouco, jogam por diversão de fim de semana, jogam o troco. Os bairros pobres jogam muito, jogam sistematicamente, jogam o que faltaria para o gás. A estatística é constrangedora, mas ninguém na grande imprensa a estampa em caixa alta. O jogo oficial é uma máquina regressiva, ou seja, retira proporcionalmente mais de quem tem menos. Se um deputado ousasse propor um imposto desses, com essa curva de incidência, seria crucificado em rede nacional. Vestido de loteria, com jingle alegre e propaganda na novela das oito, vira política pública aplaudida. Repita a palavra mágica, programa social, e qualquer confisco se converte em virtude cívica.
E há ainda a perversidade dos números. A probabilidade matemática de ganhar a faixa principal flerta com a de ser atingido por um raio em pleno deserto enquanto se é mordido por um tubarão. O brasileiro, contudo, é doutorado em otimismo estatístico. Acredita mais no bilhete do que na previdência, e talvez tenha razão, porque a previdência também é uma loteria, só que com regras alteradas no meio do jogo. A diferença é que da Caixa Econômica ele recebe pelo menos a chance teórica de algo. Do Estado, recebe a certeza matemática de receber menos do que pagou, corrigido por um índice que o próprio Estado calcula. Entre dois cassinos viciados, o cidadão escolhe aquele que ao menos serve cafezinho na entrada.
O sorteio especial dos trinta anos é, portanto, menos uma comemoração e mais um aniversário de casamento entre o governo e o seu mais fiel pagador, aquele que nunca atrasa, nunca reclama e ainda agradece a oportunidade. Trinta anos de uma operação que arrecada bilhões, distribui migalhas a alguns sortudos para manter viva a fé do rebanho, e converte o restante em orçamento discricionário que nenhum jornal investiga com a atenção que daria a um desvio equivalente no setor privado. Se uma empresa privada operasse com essa margem, esse marketing e essa opacidade, estaria na capa dos cadernos de economia como caso de cartel. Sendo monopólio público, vira motivo de orgulho nacional.
Fica então o convite ao leitor, antes que ele saia para a lotérica neste sábado. Antes de preencher o volante, faça um exercício breve. Some o que gastou em apostas nos últimos doze meses. Aplique esse mesmo valor mensal num investimento qualquer, do mais conservador ao mais arrojado, e projete trinta anos. O número que aparecerá na ponta do lápis costuma ser maior do que muitos prêmios reais já pagos a ganhadores comuns, descontado o leão que come a metade da bolada na hora do saque. A diferença é que esse caminho exige paciência, disciplina e a coragem impopular de não acreditar em milagres patrocinados pela União. Quem paga a festa dos trinta anos é sempre o mesmo. Quem recebe, raramente.
Com informações da Poder360. A análise e opinião são do O Algoz.