Adhara Pérez Sánchez tem onze anos, mora na Cidade do México, carrega no currículo um mestrado concluído e diz, sem o constrangimento que o adulto medíocre tentaria impor, que quer ir para o espaço. A notícia chega embrulhada em ternura, como se fosse um conto de fadas neurodivergente, mas o que ela escancara é bem mais incômodo: a engrenagem oficial de ensino, essa que consome bilhões em impostos por toda a América Latina, foi sumariamente derrotada por uma mãe que tirou a filha da escola pública depois que a menina foi humilhada por colegas e ignorada por professores. Repita a frase devagar. A solução veio quando o Estado saiu do caminho.
O enredo se repete com a monotonia de um relógio quebrado que acerta duas vezes por dia. Crianças prodígio aparecem onde a burocracia pedagógica falha em sufocá las. Mozart compôs antes dos seis porque o pai o ensinou em casa, não porque havia um ministério da música infantil distribuindo flautas doces. Pascal redescobriu a geometria de Euclides aos doze trancado num escritório, sem coordenador pedagógico para lhe explicar que ângulos agudos podiam ofender alguém. A regra histórica é cristalina: o talento floresce quando escapa da fôrma niveladora, e murcha quando é forçado a marchar no compasso do aluno médio que o burocrata escolheu como denominador comum.
E quem paga essa fôrma? O contribuinte, naturalmente. No Brasil, o orçamento da educação ultrapassa setecentos bilhões somando União, estados e municípios, e o resultado é uma legião de jovens que termina o ensino médio sem interpretar uma bula de remédio. Quem recebe? A indústria do diploma, os sindicatos corporativos, as editoras conveniadas, os palestrantes de paradigma, os consultores de letramento socioemocional, toda uma fauna que vive do fracasso alheio e que ficaria desempregada se uma criança autista de onze anos pudesse, livremente, estudar no próprio ritmo. O sistema não existe para ensinar, existe para se autoperpetuar. Confunda essas duas coisas e você não entende nada do que se passa numa secretaria de educação.
Note a inversão grotesca. A menina foi diagnosticada com autismo, rotulada como problema, encaminhada para o circuito da pena institucional. Foi a recusa desse rótulo, a desobediência calculada da mãe, que liberou o gênio. Se a família tivesse obedecido, teríamos hoje mais uma adolescente medicada, frustrada, presa numa carteira escolar discutindo se Plutão é planeta enquanto resolve mentalmente equações diferenciais. O que o aparato chama de inclusão é, na prática mais das vezes, contenção. Inclui se o corpo, exclui se a mente. A criança vira estatística no relatório do secretário, e o secretário vira candidato a deputado. Todo mundo ganha, menos a criança.
A lição que ninguém vai querer aprender é que educação de verdade custa pouco e exige muito. Custa pouco porque o instrumento essencial é um adulto disposto, alguns livros e silêncio. Exige muito porque demanda coragem de admitir que crianças são desiguais, que talentos são desiguais, que tratar todo mundo igual é a forma mais eficiente de produzir mediocridade homogênea. O igualitarismo pedagógico é o cimento com que se constrói a senzala mental moderna, e o senhor de engenho hoje veste terno, dá entrevista sobre equidade e tem cargo comissionado.
Adhara quer ir para o espaço. Tomara que vá, e que de lá olhe para baixo e perceba, com a clareza que só a distância dá, que o foguete só decolou porque alguém, em algum momento, teve a ousadia de desligar o motor da burocracia. Quem paga a conta da escola que não ensina continua sendo o pagador de impostos. Quem recebe os dividendos continua sendo a casta que faz do fracasso o seu modelo de negócio. E quem escapa, escapa apesar deles, nunca por causa deles.
Com informações da O Antagonista. A análise e opinião são do O Algoz.