Há um detalhe curioso na história da medicina ocidental que os cronistas oficiais preferem omitir: durante séculos, o conhecimento sobre plantas medicinais ficou guardado nas mãos de mulheres. Parteiras, curandeiras, ervaneiras, todas elas detinham um patrimônio farmacológico acumulado por gerações de observação empírica rigorosa, o tipo de conhecimento que não passa por ensaio clínico patrocinado, não gera patente e, portanto, não gera lucro para ninguém que não seja a própria mulher que planta, colhe e prepara. Foi precisamente por isso que esse conhecimento foi sistematicamente ridicularizado, perseguido e, quando possível, criminalizado. Não por ser ineficaz. Por ser gratuito.
A menopausa é uma fase fisiológica normal da vida de qualquer mulher. Não é uma doença. Nunca foi. Mas transformar fisiologia em patologia é o negócio mais lucrativo que existe no mercado de saúde, e o mercado de terapia hormonal no Brasil movimenta cifras que fariam corar qualquer lobista. A lógica é simples e não requer nenhuma teoria conspiratória mirabolante: se a mulher pode tratar os sintomas da menopausa com valeriana cultivada no fundo do quintal, ela não precisa de receita, não precisa de consulta de acompanhamento, não precisa de reajuste anual de plano de saúde e não alimenta a cadeia de distribuição farmacêutica. Cada camomila plantada em casa é uma margem de lucro que deixa de existir. Siga o dinheiro e você entenderá por que o debate sobre fitoterapia no Brasil é tratado com o mesmo entusiasmo acadêmico reservado às notícias sobre ovnis.
As plantas não mentem. A cimicifuga, o trevo vermelho, a valeriana, a sálvia, o dong quai e a própria camomila possuem décadas de uso documentado para o alívio de fogachos, insônia, irritabilidade e instabilidade de humor, que são os quatro cavaleiros do apocalipse hormonal que assombram mulheres entre quarenta e cinco e cinquenta e cinco anos no mundo inteiro. A questão não é se funcionam. A questão é para quem é conveniente que funcionem ou não funcionem dentro do sistema regulatório vigente. A ANVISA existe formalmente para proteger o consumidor. Na prática, como qualquer agência reguladora do planeta, ela tende a proteger com muito mais eficiência os mercados estabelecidos do que os consumidores que deveria servir. É a natureza institucional do animal, não uma acusação pessoal a nenhum servidor público específico.
Existe uma ironia densa nesse cenário que merece ser saboreada lentamente. O mesmo sistema que durante décadas chamou de "crendice" o uso de plantas medicinais por mulheres mais velhas, hoje, quando a fitoterapia começa a ganhar reconhecimento científico e mercadológico, corre para regulamentar, certificar, licenciar e, naturalmente, encarecer o acesso a esses produtos. O extrato de cimicifuga que a vovó colhia no quintal agora vem em cápsula com selo de boas práticas de fabricação, registro na agência competente e preço compatível com a burocracia que carrega nas costas. O conhecimento foi primeiro ridicularizado, depois confiscado e, finalmente, revendido com margem de lucro. É o ciclo clássico: deslegitima-se o saber popular, cria-se o vácuo, preenche-se o vácuo com produto licenciado. Impecável.
O ponto que a imprensa de saúde rara vez articula com clareza é que a fitoterapia não é alternativa à medicina, é anterior a ela. Toda farmacologia moderna parte de compostos que alguém, em algum ponto da história, observou em uma planta antes de qualquer laboratório existir. A aspirina veio do salgueiro, a morfina da papoula, a penicilina do mofo, e assim por diante. O que a indústria faz é isolar, sintetizar, patentear e distribuir com exclusividade aquilo que a natureza oferece de graça. Isso não é crime, é negócio. Mas confundir esse negócio com o limite do conhecimento disponível, descartar como primitivo tudo aquilo que não cabe numa patente, isso é ou ignorância ou desonestidade intelectual, e raramente é ignorância.
A mulher que passa pela menopausa merece informação completa, não informação filtrada pelo interesse de quem lucra com cada receita médica emitida. Ela tem o direito soberano sobre o próprio corpo e isso inclui o direito de tratar seus sintomas com ervas que crescem no jardim, sem pedir permissão a nenhuma agência, sem passar por nenhum intermediário credenciado, sem financiar nenhuma cadeia de distribuição que se interpõe entre ela e um chá de valeriana. Quem paga a conta da menopausa medicalizada? Ela. Quem recebe? Todo mundo menos ela. Há alguma coisa errada nessa equação, e a resposta não cresce em cápsula.
Com informações de O Antagonista. A análise e opinião são do O Algoz.