A Confederação Nacional da Indústria descobriu, com ar de quem acaba de tropeçar numa verdade inconveniente, que apenas 44,5% dos brasileiros conseguem mexer numa planilha, configurar um sistema ou olhar para uma inteligência artificial sem achar que é feitiçaria. O número é servido como tragédia nacional, acompanhado do ritual sagrado de pedir mais verba, mais programa, mais política pública, mais secretaria, mais conselho, mais fórum. Sempre a mesma reza, sempre a mesma sacristia, sempre os mesmos coroinhas passando a sacola. O que ninguém pergunta, porque perguntar estraga a festa, é simples: se meio século de ministério da educação, piso salarial, cotas, bolsa, merenda, livro didático gratuito e campanhas comoventes não produziu cidadãos capazes de somar uma coluna no Excel, por que raios a solução seria mais do mesmo remédio que causou a doença?
A trilha do dinheiro, como sempre, é o único mapa honesto. O orçamento da educação no Brasil não é pequeno, é obsceno. Somam-se federal, estadual e municipal e chega-se a uma montanha de recursos que, per capita, rivaliza com países que formam engenheiros enquanto nós formamos pessoas que confundem arquivo com pasta. Para onde vai o dinheiro? Vai para folha de pagamento inflada, para sindicato, para fundação de pesquisa que pesquisa a si mesma, para editora amiga que vende apostila ideológica a preço de joia rara, para secretário que alterna cargo com mandato, para ONG que capacita capacitadores de capacitação. O aluno, criatura periférica nesse arranjo, é apenas o pretexto contábil. Se ele aprendesse, a máquina acabaria; se a máquina acabasse, acabaria o emprego de quem vive dela. Logo, o aluno não pode aprender. É silogismo de primeiro semestre, mas ninguém quer ouvir.
Há algo de grotescamente cômico no fato de a indústria, que financia via imposto esse estado de coisas, aparecer agora chorando a falta de mão de obra. É o fazendeiro que paga impostos para o governo comprar o gado, depois reclama que não há gado no pasto. A CNI poderia, em tese, financiar suas próprias escolas técnicas, suas próprias academias de programação, seus próprios centros de formação, e entregar em três anos o que o sistema oficial não entrega em três décadas. Por que não faz? Porque é mais barato reclamar e pedir ao governo que o faça com o dinheiro alheio, ou seja, com o dinheiro dos próprios industriais mais o dinheiro do padeiro, do motoboy e da manicure, todos compulsoriamente convocados para o rateio. A reclamação, portanto, é encenação. O verdadeiro produto da queixa é outra rodada de isenção fiscal travestida de parceria público privada.
Enquanto isso, a escola real, aquela onde o filho do trabalhador senta na cadeira de ferro, gasta trezentas horas por ano ensinando que o capitalismo é mau, que o mercado é injusto, que a tecnologia é ferramenta de opressão colonial, e zero hora ensinando o que é uma célula de planilha, uma condicional, uma fórmula matricial. Depois a mesma escola produz um relatório dizendo que o aluno não sabe usar planilha. É como formar padeiro sem deixar ele chegar perto do forno e no fim lamentar que o pão saiu cru. A conclusão se impõe com a brutalidade de um teorema: o sistema não falhou, ele está entregando exatamente aquilo para o qual foi desenhado, que é uma população dependente, assustada, incapaz de competir e portanto permanentemente disponível para o próximo salvador de plantão com um programa de transferência de renda debaixo do braço.
A história conhece bem esse arranjo. Toda corte decadente precisou de uma plebe iletrada para justificar a existência de um clero letrado que lesse em seu nome. Roma tinha seus augures, a Europa medieval seus copistas, o Brasil tem sua burocracia educacional. A função é idêntica: manter o acesso ao conhecimento como privilégio administrado, e cobrar pedágio eterno pela mediação. Inteligência artificial, para quem domina, é alavanca de produtividade que multiplica salário por dez. Para quem não domina, é mais uma senha que ele não sabe, mais um campo que ele não preenche, mais um formulário que ele precisa pagar alguém para despachar. A desigualdade digital não é um acidente lamentável do progresso, é o novo nome da velha servidão, agora com interface colorida e termo de aceite de cookies.
Quem paga essa conta é o brasileiro médio, que sustenta com seu imposto uma máquina que o mantém propositalmente burro para que continue precisando dela. Quem recebe é a casta que vive de mediar, legislar, fiscalizar, consultar, assessorar e palestrar sobre o problema que ela mesma cultiva. A solução não virá de mais um plano decenal, de mais um pacto nacional, de mais um ministério reformulado. Virá no dia em que o cidadão descobrir que pode aprender sozinho, de graça, com um aparelho no bolso, exatamente aquilo que o Estado cobra caríssimo para não ensinar. No dia em que essa ficha cair, o rei aparece nu, e o riso que se ouvirá será ensurdecedor.
Com informações da Revista Oeste. A análise e opinião são do O Algoz.