A cena é quase cômica de tão escancarada. Um presidente de banco estatal, dedo no WhatsApp, mandando o diretor financeiro apressar a compra de carteiras de um banco privado específico e, no mesmo fôlego, pedindo que os números do balanço fossem amassados até caberem na narrativa. Não é fofoca de corredor, não é interpretação maldosa de jornalista, são prints. A polícia extraiu, peritou, anexou. O que sobra para o cidadão é a velha pergunta que ninguém em Brasília gosta de ouvir: quem paga essa festa e quem leva o doce para casa?
O BRB, convém lembrar a quem ainda acredita em contos de fadas, não é o banco do seu Joaquim da padaria. É instituição controlada pelo governo do Distrito Federal, ou seja, sustentada pelo bolso de quem mora, trabalha e paga IPTU em Brasília. Quando o presidente desse banco resolve, por iniciativa pessoal ou por encomenda, varrer carteiras de crédito de uma instituição privada conhecida por colecionar ativos de qualidade duvidosa, ele não está fazendo negócio brilhante de mesa de operações. Está transferindo risco. Tirando podridão do balanço alheio e empurrando para o balanço público, onde o prejuízo, quando estourar, vira problema de todo mundo e responsabilidade de ninguém.
Há uma palavra antiga e muito útil para esse tipo de arranjo: privatizar lucros, socializar perdas. O Master fica com o dinheiro vivo, livre, leve e solto. O BRB fica com o papel, com a esperança de cobrar, com a saudade do caixa. E o contribuinte do DF, esse coitado, fica com a conta diferida, parcelada em juros futuros, em corte de serviço público, em aporte de capital quando o rombo aparecer. É o esquema mais antigo do livro, repetido com pequenas variações desde que apareceu o primeiro príncipe disposto a emprestar moeda do tesouro para o banqueiro favorito da corte. Muda o figurino, muda o aplicativo de mensagem, a engenharia é a mesma.
O detalhe da manipulação contábil é o que separa a operação suspeita do crime explícito. Comprar mal já seria incompetência ou favorecimento. Mandar maquiar o resultado para que ninguém perceba o tamanho do estrago é confissão. Se o negócio fosse bom, por que esconder? Se a carteira valia o que se pagou, por que precisar ajustar linha por linha para a foto sair bonita no fechamento do trimestre? A lógica não perdoa: ou o ativo era ruim e sabiam, ou era bom e ainda assim quiseram fraudar o balanço, o que é pior. Não existe terceira hipótese decente.
E aqui entra a parte que a imprensa palaciana sempre evita encarar de frente. Esse tipo de relação promíscua entre banco estatal e banco privado de estimação não nasce do nada. Ela precisa de padrinhos políticos, de complacência regulatória, de auditoria distraída e, sobretudo, de uma classe inteira de operadores que circula entre o setor público e o privado como quem troca de paletó. O presidente do BRB não acordou um dia decidido a salvar o Master por amor à instituição. Alguém ganhou, alguém autorizou, alguém olhou para o lado. Seguir essa trilha de favores, indicações e jantares é o trabalho que o Ministério Público teria, se quisesse, mas que normalmente termina arquivado em nome da estabilidade institucional.
Resta a pergunta do começo, agora com endereço. Quem pagou foi o brasiliense, via banco que é seu sem que ele saiba direito. Quem recebeu foi o acionista do Master, livre do mico que tinha em carteira. Quem operou levou o salário, talvez o bônus, talvez algo mais discreto que mensagens de WhatsApp ainda não revelaram. E a moral da história é a de sempre: enquanto existir banco público manejado por indicação política, vai existir fila de banqueiro privado esperando a vez de descarregar prejuízo no caixa alheio. O escândalo não é a exceção do sistema, é o sistema funcionando exatamente como foi desenhado para funcionar.
Com informações da Revista Oeste. A análise e opinião são do O Algoz.