O número chega embrulhado em papel de presente, com lacinho e tudo: vinte e dois bilhões de reais em 2026, trinta por cento de crescimento em dez anos, o Brasil supostamente descobrindo a sofisticação enquanto franceses, italianos e argentinos veem o consumo encolher ano após ano. A imprensa econômica recebe o release, troca o verbo, acrescenta um adjetivo de boutique e publica como se fosse análise. Ninguém faz a pergunta elementar, aquela que separa o jornalismo do estenógrafo: se o mundo inteiro está bebendo menos vinho, por que justamente aqui, no país do chope quente e do destilado de cana, a curva sobe? A resposta não está na taça, está no balcão de despachos de Brasília.
Vinho importado paga, em média, algo próximo de oitenta por cento de carga tributária na soma de impostos federais, estaduais e municipais. Uma garrafa que sai do produtor chileno por dez dólares aterrissa na prateleira do supermercado brasileiro custando o equivalente a quatro vezes esse valor, e ainda assim o consumidor agradece, porque comparou com o preço do ano passado e achou barato. É a velha alquimia do confisco silencioso: você nunca vê o tributo, você só vê o preço final, e quando reclama lhe explicam que vinho é artigo de luxo, logo merece ser punido. Punido por quem? Pelo mesmo Estado que distribui isenção a montadora, refinaria e banco, e que olha para uma garrafa de tinto como se fosse iate atracado em Mônaco.
Acompanhe o roteiro até o fim e a peça se monta sozinha. A carga sufocante sobre o importado funciona como muro de proteção para o produtor nacional, que sob o disfarce nobre de defesa da indústria local empurra rótulo medíocre a preço de gran reserva. Some a isso linhas de crédito subsidiadas, programas de incentivo regional, dinheiro do contribuinte travestido de fomento à vitivinicultura, e você tem o esquema completo: o paulista, o carioca e o mineiro são taxados duas vezes, primeiro no imposto que paga a propaganda do setor, depois no preço inflado da garrafa que compra na esquina. O crescimento de trinta por cento não é milagre de paladar, é matemática de cativeiro.
Há ainda o fenômeno cultural, que merece o bisturi sem anestesia. Vinho virou marcador de classe num país onde a classe média encolhe, justamente porque sinalizar status custa cada vez mais caro num ambiente de moeda apodrecida. Quando a inflação corrói o salário, o sujeito gasta o que sobra em pequenos rituais de pertencimento, a garrafa de Malbec no jantar de sexta, o curso de sommelier no fim de semana, a viagem ao Vale dos Vinhedos que substitui as férias na Europa que ele não pode mais pagar. O consumo de vinho cresce não porque o brasileiro enriqueceu, mas porque empobreceu de um jeito específico, aquele em que ainda resta orçamento para a fantasia, mas já não para a substância.
É o mesmo padrão que se viu em Roma decadente, quando o povo trocou cidadania por pão e circo, e em qualquer corte europeia em que o vassalo aprendeu a imitar o vocabulário do senhor enquanto pagava a taxa que sustentava o castelo. A diferença é que hoje a corte se chama agência reguladora, o senhor se chama setor produtivo organizado, e o tributo se chama política pública. Quem paga continua sendo o mesmo de sempre, aquele que abre a carteira sem perguntar para onde vai o dinheiro, e quem recebe são os de sempre também, os que sabem exatamente onde fica o gabinete certo, com o assessor certo, na hora certa. Vinte e dois bilhões de reais não brotam de uma uva. Brotam de um arranjo. E todo arranjo, mais cedo ou mais tarde, deixa cheiro de rolha estragada.
Com informações da Poder360. A análise e opinião são do O Algoz.