O placar é uma sentença. Um a zero, gol de Matheus Bidu, lateral esquerdo que decidiu invadir a área alheia porque os atacantes contratados a peso de ouro pareciam estar negociando passe em vez de jogar bola. O Corinthians venceu o Vasco em pleno São Januário, em situação que qualquer manual de futebol classificaria como desfavorável, jogando boa parte da partida com um homem a menos. E mesmo assim ganhou. A pergunta que se impõe não é como o Corinthians venceu, é como o Vasco conseguiu perder.

Há uma lógica brutal nessas coisas, e ela funciona como funciona a tábua de multiplicar: onze homens contra dez deveriam, num cálculo elementar, produzir vantagem proporcional. Quando o resultado contraria a aritmética, há somente duas explicações possíveis, e nenhuma delas favorece o lado que tinha mais peças no tabuleiro. Ou o time superior numericamente é tecnicamente inferior, ou o time inferior numericamente compensa com algo que não se compra no mercado de transferências, que é vergonha na cara. Sobra ao torcedor cruzmaltino escolher qual das hipóteses dói menos.

E aí entra a parte que ninguém quer conversar, mas que precisa ser conversada, porque futebol no Brasil deixou de ser esporte e virou folha salarial com bola no meio. Quanto custa o elenco do Vasco? Quanto entra de patrocínio, de cota de televisão, de bilheteria, de sócio torcedor? Cada gol não feito, cada chute na arquibancada, cada bola perdida no meio campo tem preço em real, e quem paga essa conta não é o jogador que erra, é o torcedor que renova a mensalidade do programa de fidelidade acreditando que dessa vez vai. Sempre dessa vez vai. Nunca vai.

O Corinthians, por sua vez, fez o que time grande tem obrigação de fazer quando o adversário se acovarda diante da própria vantagem: aproveitou. Bidu apareceu no lugar certo, no momento certo, e converteu em gol o que deveria ser tarefa de quem ganha cinco vezes o salário dele. É a velha história do empregado que faz o serviço do patrão e ainda recebe menos. Há algo de profundamente educativo nisso, embora a lição seja dolorosa para metade dos envolvidos.

Resta a pergunta que sempre fica suspensa nas derrotas humilhantes em casa: quem ganha com isso? O treinador adversário ganha respiro na cadeira ejetável. O lateral que marcou ganha contrato renovado e talvez uma sondagem do exterior. Os cartolas vencedores ganham a manchete de domingo. E os perdedores, esses, ganham o silêncio constrangido do vestiário e a certeza de que a próxima rodada chega sem dó. O torcedor que pagou o ingresso ganhou o privilégio de ver, ao vivo e em alta definição, como se desperdiça uma vantagem numérica. Caro, o ingresso. Mais caro ainda, o aprendizado.

Com informações da Jovem Pan. A análise e opinião são do O Algoz.