A bolsa mexicana amanheceu prometendo bonança e terminou o dia devolvendo aos acionistas a lição mais antiga do capitalismo, a de que preço de ativo não obedece a comunicado oficial. O S&P/BMV IPC caiu 1,09% num pregão que, olhado de perto, não tem nada de aleatório. Tem gente vendendo porque enxergou o que os analistas de banco insistem em não ver, que o tal nearshoring, essa palavra mágica que virou desculpa para todo tipo de subsídio e isenção fiscal no país vizinho, é menos milagre e mais miragem sustentada por dinheiro barato e política industrial dirigida do norte.

Me diz uma coisa, quando foi que uma economia latino-americana prosperou de verdade apostando em decreto presidencial e em promessa de multinacional? A resposta histórica é constrangedora, nunca. E ainda assim o mercado azteca passou dois anos precificando o pressuposto de que Washington ia manter a política de contenção da China intacta, de que o dólar continuaria fraco por conveniência do Tesouro americano, e de que o consumidor gringo compraria eternamente independente do tamanho da sua dívida no cartão. Bastou um sopro contrário nessas três premissas para o índice recuar. Não é crise, é ajuste de expectativa. E ajuste de expectativa é o momento em que a realidade cobra a fatura da fantasia.

Siga o dinheiro que sai da bolsa hoje e você encontra um mapa fascinante. O capital não está fugindo por medo abstrato, está fugindo porque percebeu que o peso mexicano se sustentou artificialmente forte enquanto o Banxico manteve juros num patamar que sufoca a economia real para agradar o carry trader estrangeiro. Enquanto isso, o governo de Sheinbaum acena com expansão fiscal para pagar as promessas herdadas do antecessor, e ninguém no mercado é ingênuo o bastante para acreditar que essa conta fecha sem inflação, sem calote disfarçado ou sem os dois combinados. O investidor sério faz as contas com lápis, não com hashtag.

Existe algo ainda mais profundo por trás desse tombo, e é a lição que quase ninguém tem coragem de dizer em voz alta. Toda vez que um país aposta seu futuro em ser oficina barata de outra potência, ele terceiriza sua soberania econômica para a decisão de um comitê estrangeiro. Se amanhã Washington resolver que a China voltou a ser parceira comercial preferencial, ou que Vietnã oferece melhores condições, o milagre mexicano vira estatística no capítulo triste dos manuais de economia do desenvolvimento. Não se constrói riqueza duradoura sendo cortesão de império alheio, se constrói com poupança interna, segurança jurídica, moeda sólida e Estado pequeno. O México tem exatamente o oposto de cada um desses pilares.

A queda de hoje é modesta em números e enorme em significado. Ela sinaliza que o dinheiro esperto, aquele que não lê jornal para ter opinião mas para confirmar o que já intuiu, está começando a repensar o carnaval nearshoring. E quando o dinheiro esperto sai, sobra o dinheiro tolo segurando o mico, geralmente o pequeno investidor local convencido pelo corretor de que dessa vez seria diferente. Nunca é diferente. A gravidade econômica funciona igual em Cidade do México, em São Paulo e em Buenos Aires. Ativo sem fundamento sobe pela euforia e desce pela lucidez, e a lucidez sempre chega, mesmo quando demora.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.