Uma mulher posta uma foto segurando um detergente de cinco reais e o país inteiro entende o recado. Pense bem no absurdo da cena antes de seguir adiante. Não estamos falando de um manifesto, de um discurso inflamado em praça pública, de uma greve geral ou de uma carta aberta com mil assinaturas. Estamos falando de um frasco de plástico amarelo, daqueles que toda dona de casa empurra no carrinho do mercado sem pensar duas vezes, virando bandeira de resistência. Quando o gesto mais banal da rotina doméstica precisa ser ressignificado como protesto, é porque alguma coisa muito feia está acontecendo no andar de cima.
O contexto é conhecido e merece ser repetido com calma, porque a memória do brasileiro tem a duração de um story. Surgiu a denúncia, ainda nebulosa nas provas e cristalina na intenção, de que a fabricante do detergente estaria sendo hostilizada pelo governo central. A reação popular foi imediata, espontânea, e veio pelo lugar onde dói de verdade no bolso do empresário e no caixa do Tesouro: a prateleira. Comprar virou voto. Não votar com cédula, votar com nota fiscal, que é a única forma de voto que o poder realmente teme, porque é a única que ele não consegue auditar nem anular no tribunal de plantão.
Repare na inversão grotesca do palco. O Estado, que deveria ser o árbitro neutro garantindo contratos e a lei, vira jogador, técnico e juiz ao mesmo tempo, e ainda exige aplausos da torcida. A empresa, que sustenta milhares de empregos diretos e recolhe impostos suficientes para pagar uma frota inteira de assessores parlamentares, tem que provar todo dia que merece existir, enquanto o burocrata que a persegue não precisa provar coisa nenhuma para continuar empregado. Siga o dinheiro e você verá: quem produz sabão é tributado para sustentar quem aprova a regulação que decide se o sabão pode ser vendido. É o coronel cobrando pedágio na estrada que ele mesmo bloqueou.
Há um silogismo cruel escondido nessa fotografia trivial. Se o cidadão precisa fazer campanha pública para que uma empresa privada e produtiva não seja triturada pela máquina pública, então a máquina pública deixou de servir ao cidadão e passou a servir a si mesma. Se ela serve a si mesma, então qualquer ato de consumo livre vira, por contraste, um ato político. E se comprar detergente é político, comprar pão também é, comprar carne também é, escolher o posto de combustível também é. Acabamos de descobrir, sem querer, que vivemos sob um regime onde até a esponja amarela tem ideologia atribuída por decreto não escrito.
A história já viu esse filme em variantes piores. Boicotes orquestrados de cima contra comerciantes incômodos, listas negras informais que arruinaram sobrenomes inteiros, fiscais sanitários que apareciam por acaso justamente nas padarias do opositor, alvarás que demoravam um ano para sair na esquina certa e saíam em uma semana na esquina amiga. Sempre que o poder político descobre que pode usar a caneta para premiar amigos e estrangular inimigos, ele usa, e usa com sorriso de quem está cumprindo missão histórica. A novidade, se é que existe alguma, é que agora a contraofensiva não vem de partido, de sindicato ou de jornal, vem da senhora que decide qual marca leva para casa. É pouco e é tudo ao mesmo tempo.
O detalhe que ninguém deveria deixar passar é o seguinte: enquanto a discussão se concentra no frasco amarelo e em quem posou com ele, o problema de fundo segue intocado e bem alimentado. O problema de fundo é a existência de um aparato estatal tão inchado, tão discricionário e tão pouco accountable que basta um telefonema mal humorado para transformar uma fábrica em ré. Enquanto não encolhermos esse Leviatã, a próxima vítima já está escolhida, só falta a foto. Hoje é detergente, amanhã é refrigerante, depois de amanhã é a marca de café que você toma de manhã. Quem paga essa farsa é sempre o mesmo, o consumidor, que financia tanto a empresa perseguida quanto o perseguidor com salário público. Quem recebe também é sempre o mesmo, o burocrata que descobriu que o medo alheio é a moeda mais valiosa do mercado.
Com informações da Poder360. A análise e opinião são do O Algoz.