Existe um momento na carreira de todo personagem público em que o desmentido vale mais do que a acusação. Domingo, 24, a ex-primeira-dama resolveu vir à praça pública anunciar urbi et orbi que não possui grupo político algum, muito menos um grupo articulado contra a pré-candidatura do senador fluminense ao Palácio do Planalto. O problema, como sabe qualquer um que já leu três páginas de história política, é que pronunciamentos solenes de inexistência costumam ser a confirmação mais robusta da existência. Quando o czar dizia que não havia fome na Ucrânia, era porque havia. Quando o ministro garante que a moeda está sólida, é hora de comprar dólar. E quando a viúva política do clã anuncia que não tem facção, é porque a facção já tem até logotipo, tesoureiro e lista de convidados para o jantar de lançamento.
Vejamos o silogismo na sua nudez constrangedora. Premissa maior: grupos políticos inexistentes não geram reportagens de página inteira em jornal de circulação nacional. Premissa menor: a Folha publicou reportagem de página inteira sobre o tal grupo inexistente. Conclusão inevitável: ou os repórteres da Folha estão alucinando coletivamente, hipótese pouco provável dado o conservadorismo editorial do veículo nessas matérias, ou o grupo existe, opera, tem agenda própria e está incomodando o suficiente para a chefe nominal precisar negar em domingo de manhã. Lógica não admite terceira via. E quem nega o que ninguém perguntou está, no mínimo, respondendo a uma pergunta que foi feita dentro de casa.
Mas siga o dinheiro, que é onde toda novela política revela seu enredo verdadeiro. A disputa não é sobre quem ama mais o capitão aposentado nem sobre quem carrega melhor a bandeira. A disputa é sobre quem fica com o espólio. Espólio eleitoral, espólio simbólico, e principalmente espólio de fundo partidário, esse dinheiro extraído do bolso do contribuinte sob a justificativa nobre de fortalecer a democracia e que termina, invariavelmente, financiando voo executivo, marqueteiro caro e jantar em restaurante que o brasileiro médio não consegue nem ler o cardápio. O fundão de bilhões está aí, intocado, esperando o ungido. E quando há um caixa desse tamanho na mesa, primos, enteados, esposas, irmãos e padrinhos descobrem subitamente vocações políticas que ninguém suspeitava.
A graça da cena é o teatro da unidade familiar enquanto os bastidores fervem com a guerra de sucessão típica de qualquer dinastia em decadência. As cortes medievais funcionavam exatamente assim: o rei deposto, ou preso, ou inelegível, e os herdeiros putativos sorrindo nas missas oficiais enquanto contratavam envenenadores para o jantar. A diferença é que hoje os envenenadores se chamam assessores de imprensa, e o veneno é o vazamento seletivo para a coluna amiga. O resultado é o mesmo: alguém sai da mesa carregado, e o trono fica vago para quem tiver mais estômago e menos escrúpulo.
Há ainda um detalhe delicioso na escolha das palavras. Dizer "eu não tenho grupos" no plural é uma confissão sintática de que talvez tenha um, singular, bem específico, e que o problema é a forma de contagem. É o mesmo recurso retórico do marido que jura não ter amantes, no plural, esperando que a esposa não note a singularidade do desvio. A gramática trai onde a vontade tentou esconder. E quem precisa fazer estatística sobre os próprios cardumes políticos certamente nada em águas mais profundas do que admite.
No fim, o que se vê é o ritual previsível de uma família que confundiu sobrenome com projeto político e agora descobre, com o atraso habitual desses casos, que cargo eletivo não é herança, voto não é título de propriedade e que a base militante, por mais fiel que seja, não tolera muito tempo o espetáculo dos herdeiros se digladiando pelas migalhas do patriarca. Quem paga essa novela? O contribuinte, sempre. Quem recebe? Os de sempre, aqueles que aprenderam que negar um grupo em público é a maneira mais barata de anunciá-lo ao mercado. O rei está nu, os príncipes brigam pela coroa de papelão, e o povo, esse, segue pagando o ingresso para assistir.
Com informações do O Antagonista. A análise e opinião são do O Algoz.