O Ministério da Cultura anunciou com ares de descobridor de continente uma plataforma colaborativa que mapeia cerca de 380 eventos literários pelo Brasil. Note bem o verbo: mapeia. Não cria, não financia integralmente, não concebeu. Mapeia. Quer dizer, alguém passou a régua sobre um território que já estava povoado, habitado, cultivado por gente que vinha fazendo feira de livro desde que o burocrata de Brasília ainda estava decidindo a cor da pasta do relatório. E agora vem o mapa, solene, como se o cartógrafo tivesse fundado as cidades que apenas desenhou.

A pergunta que ninguém faz nos comunicados oficiais é a mais simples de todas: quem paga essa plataforma e quem colhe o crédito político por ela? O contribuinte paga, claro, como paga tudo, inclusive o cafezinho de quem o chama de beneficiário. Os eventos em si, esses seguem financiados por prefeituras, patrocínios privados, vaquinhas de livrarias independentes, pequenos editores que torram margem apertadíssima para levar autor ao interior. O ministério entra no final da festa, tira foto com o bolo, e no dia seguinte manda a nota de imprensa dizendo que promoveu a celebração. É a velha mágica de aparecer na fotografia da obra alheia.

Existe uma lógica rigorosa nisso, e ela não é a lógica cultural, é a lógica política. Se o governo mapeia, o governo aparece como articulador. Se aparece como articulador, pleiteia orçamento para articular. Se pleiteia orçamento, contrata consultoria, cargos comissionados, sistema de plataforma, equipe de comunicação, diária de viagem para visita técnica aos festivais mapeados. O mapa vira emprego, o emprego vira dependência, a dependência vira obediência, e no fim da linha o pequeno festival literário do interior de Minas descobre que precisa do selo para sobreviver. Foi assim com tudo que o Estado resolveu catalogar ao longo da história: começa como inventário, termina como alfândega.

Há ainda a sutileza do verbo colaborativo. Colaborativo significa, em bom português, que o trabalho de alimentar a base será feito pelos próprios organizadores dos eventos, de graça, enquanto o custo da estrutura, dos servidores e dos cargos será pago por quem nunca viu uma feira literária na vida. O leitor pobre da periferia de Manaus sustenta o aplicativo que promove o festival chique do circuito sul sudeste, e chamam isso de democratização. Democratizar, no dicionário do burocrata, é socializar a conta e privatizar o prestígio.

O mais pitoresco é a retórica do fomento. Fomenta-se o que já existe como se existisse por causa do fomento. Se esses 380 eventos estão catalogados é justamente porque brotaram sem autorização, sem edital, sem portaria, sem plataforma. Brotaram porque gente gosta de livro, porque cidade quer evento, porque autor quer leitor e leitor quer autor. A cultura é esse negócio teimoso que insiste em acontecer mesmo quando ninguém a subsidia, e que só começa a definhar de verdade quando alguém resolve organizá la de cima. Quem conhece a história das corporações de ofício medievais sabe onde isso termina: no registro obrigatório, na licença paga, no monopólio do carimbo.

No fim das contas, fica a moral da fábula. Trezentos e oitenta eventos literários provam, por si mesmos, que o país lê, escreve, organiza, se junta, publica e celebra sem precisar de ministério nenhum para isso. O mapa é confissão. Confessa que a cultura é mais antiga, mais viva e mais capilar do que o Estado que agora se arvora em guia turístico dela. Quem paga continua sendo o contribuinte anônimo. Quem recebe continua sendo o funcionário que fez o PowerPoint. E entre um e outro, como sempre, a literatura segue, indiferente à burocracia, fazendo o que sempre fez, que é sobreviver aos seus salvadores.

Com informações da Poder360. A análise e opinião são do O Algoz.