A Fazenda saiu correndo na sexta para avisar a plebe que existe um site falso do Novo Desenrola circulando por aí, prometendo renegociar dívidas e, no caminho, papando dados, senhas e o que mais o incauto tiver de valor digital. O ministério se diz indignado com a audácia dos criminosos. E aqui mora a primeira graça da história: o golpista copiou o layout, a tipografia, o tom paternalista, a promessa redentora, e ninguém estranhou. Por que será? Porque a falsificação ficou idêntica ao original. Quando o crime imita tão bem o Estado a ponto de a vítima não distinguir os dois, talvez o problema não esteja só na cópia.

O programa Desenrola, em qualquer de suas encarnações, sempre foi vendido como caridade do governo. É uma fraude semântica anterior à fraude digital. O governo não tem dinheiro. O governo tem o seu dinheiro, o do vizinho, o do padeiro, o do sujeito que ainda nem nasceu e já vai pagar a conta via inflação futura. Quando o palanque anuncia que vai perdoar dívidas, o que ele está fazendo é tirar do bolso de quem pagou em dia para socorrer o banco que emprestou mal e o devedor que escolheu o consumo no lugar da prudência. Os bancos adoram. Recebem aquilo que dariam por perdido, com selo de qualidade da União. Quem paga? O contribuinte silencioso, aquele que não tem ministério, não tem coletiva, não tem alerta na sexta-feira.

Agora entra o estelionatário particular, o amador, o varejista do golpe. Ele observa a operação grandiosa, percebe que existe uma multidão pré-condicionada a clicar em qualquer link com cara de governo, e monta a barraquinha dele na esquina. A diferença entre o golpe oficial e o golpe pirata é meramente burocrática: um tem CNPJ, Diário Oficial e ministro de gravata; o outro tem um servidor barato em algum país do leste europeu. Ambos vivem da mesma matéria-prima, a credulidade treinada de uma população que foi ensinada, década após década, a esperar salvação vindo de cima. O lobo precisa fingir pastor porque o rebanho já está acostumado a obedecer ao pastor.

Repare na estrutura lógica do alerta oficial. Se o cidadão precisa ser avisado de que existe site falso, é porque o cidadão não consegue mais distinguir o verdadeiro do falso. E se não consegue, é porque o verdadeiro já se comporta como falso há tempo demais. A confiança no Estado é vendida como bem público, mas é justamente essa confiança fabricada que abre a porta para o golpe particular. Sem o marketing oficial prometendo perdão de dívida, ninguém clicaria no link do criminoso. O criminoso é parasita do prestígio estatal. Vive da sombra que o Leviatã projeta na parede.

Existe ainda a peça final do teatro, a pedagogia da vitimização. A Fazenda alerta, o cidadão se sente protegido pela Fazenda, e esquece de perguntar a coisa óbvia: por que diabos o Estado tem o monopólio de renegociar a minha dívida com um banco privado? Por que preciso de um programa federal para conversar com um credor? A resposta é tediosa e velha como as cidades antigas: porque quem controla a moeda controla o crédito, quem controla o crédito controla o devedor, e quem controla o devedor coleciona votos no varejo. Imperadores romanos faziam exatamente isso quando perdoavam tributos atrasados às vésperas de uma campanha militar. Mudou o figurino, não mudou o roteiro.

Então fica o conselho prático e a observação ácida juntos. Não clique no link suspeito, evidentemente. Mas, sobretudo, desconfie do link oficial pela mesma razão que desconfia do falso: ambos querem alguma coisa sua, ambos prometem o que não podem entregar de graça, ambos contam com a sua pressa de acreditar. O golpista digital quer seu CPF e sua senha. O programa governamental quer seu voto, sua docilidade e, indiretamente, o imposto do seu vizinho. Entre os dois, o segundo é mais perigoso porque é legal, perene e tem exército. O primeiro, ao menos, qualquer antivírus decente bloqueia.

Com informações da Revista Oeste. A análise e opinião são do O Algoz.