O governo federal, por meio do Ministério das Mulheres, lançou neste mês um Guia de Comunicação Pública para Igualdade de Gênero, documento destinado a orientar servidores sobre como conjugar verbos, escolher adjetivos e distribuir substantivos de maneira considerada, pelos iluminados da pasta, adequada aos novos tempos. Traduzindo do palavrório oficial para o português dos mortais: o contribuinte está financiando uma cartilha que ensina funcionário público a falar. Não a trabalhar, não a entregar resultado, não a resolver os problemas que justificariam a existência daquele ministério. A falar. Mais precisamente, a falar do jeitinho que a turma que redigiu o panfleto gosta de ouvir.

Convém, antes de mais nada, perguntar o de sempre, a única pergunta que interessa quando a máquina estatal produz qualquer coisa: quem pagou e quem recebeu. Pagou você, que acorda às cinco para pegar condução, que vê o desconto na folha antes de saber que ele aconteceu, que paga imposto embutido no pão, na energia, no cafezinho. Recebeu um séquito de consultores, assessores, redatores, diagramadores, revisores e palestrantes profissionais, todos vivendo muito bem, obrigado, da indústria da reeducação alheia. O ministério não produz riqueza, não extrai minério, não planta soja, não costura camisa. Ele produz apostila. E cobra, via confisco compulsório, para que você seja o destinatário involuntário do sermão.

Há uma confusão deliberada nesse tipo de iniciativa, e ela merece ser desmontada com paciência de relojoeiro. Uma coisa é um cidadão privado escrever um manual de estilo e vendê-lo a quem quiser comprar; quem achar útil, paga; quem achar bobagem, ignora, e o mercado resolve em três semanas se aquilo presta ou não. Outra, radicalmente distinta, é o aparato estatal, que detém o monopólio da violência legal e o poder de tributar, fabricar uma norma linguística e distribuí-la com o timbre oficial da República. Não é conselho, é decreto disfarçado. O servidor que recebe a cartilha sabe, sem que ninguém precise explicar, que desobedecer pode custar promoção, cargo, sossego. O convite educado tem uma arma escondida atrás das costas.

A coisa fica mais pitoresca quando se olha para o que a tal igualdade de gênero já produziu em termos mensuráveis. Feminicídio em alta, fila para exame preventivo que não anda, creche que não abre, delegacia da mulher funcionando com três canetas e dois computadores. A resposta institucional para essa tragédia concreta não foi mais delegada, mais médica, mais creche. Foi uma cartilha ortográfica. É como se o médico, diante do paciente sangrando, parasse para corrigir a conjugação verbal do atendente da recepção. Há uma certa beleza macabra na inversão: quanto menor o resultado prático, maior o investimento em simbolismo. O ministério compensa a própria inutilidade produzindo gestos.

No fundo, o mecanismo é velho como o primeiro tirano que descobriu ser mais barato controlar as palavras do que construir pontes. Quem domina o vocabulário molda o pensamento, e quem molda o pensamento dispensa a necessidade de convencer pelos fatos. Não é sobre linguagem, nunca foi. É sobre treinar o servidor, e por extensão o cidadão, a falar a língua do poder, a evitar o sinônimo proibido, a temer a palavra que ontem era neutra e hoje virou ofensa. A cartilha é o chicote discreto, aquele que não deixa marca visível mas ensina o cavalo a andar na direção desejada. E o cavalo, pagando pelo chicote, ainda agradece a lição.

Fica a conta, que ninguém quer fazer em voz alta. Cada real gasto em cartilha de linguagem é um real a menos em leito hospitalar, em merenda escolar, em botão do pânico que realmente funciona. Cada servidor deslocado para produzir guia de estilo é uma perícia atrasada, um processo parado, uma denúncia engavetada. O Estado que não consegue entregar o básico tem uma energia sobrenatural para ensinar o cidadão a escolher adjetivo. Isso não é governo, é seita com orçamento público. E a tragédia é que a ofertório é compulsório, descontado na fonte, sem direito a recusa e sem pedido de recibo.

Com informações da Revista Oeste. A análise e opinião são do O Algoz.