O Ministério Público de São Paulo denunciou três ex-dirigentes do Corinthians por apropriação indébita e omissão de fiscalização. Traduzindo do juridiquês para o português que o torcedor entende na arquibancada: teriam pegado dinheiro que não era deles e, quando não pegavam, faziam vista grossa para quem pegava. A surpresa, se é que existe alguma, é apenas a coragem do órgão acusador em dar nome aos bois. Porque o esquema, esse, é tão antigo quanto a própria noção de que clube de futebol no Brasil vira, com alarmante frequência, uma espécie de confraria privada financiada por paixão alheia.
Siga o dinheiro e você descobre o óbvio. De um lado, o sujeito que acorda cedo, trabalha o mês inteiro, paga o sócio torcedor, compra a camisa oficial a preço de ouro, banca o ingresso com taxa de conveniência maior que o salário mínimo de muita gente e, no domingo, grita até perder a voz. Do outro, uma casta que se autoproclamou guardiã do patrimônio alheio, que chega de paletó, aperta mãos, distribui cargos, assina contratos e, no fim do mandato, sai pela porta dos fundos carregando pastas que ninguém audita. Entre um e outro, bilhões de reais transitando por cotas de televisão, patrocínios, transferências, direitos de imagem, luvas, comissões e aquele item contábil que os entendidos chamam, com humor involuntário, de "despesas não identificadas".
O arranjo é genial na sua podridão. A associação sem fins lucrativos, esse modelo arcaico que sobrevive por inércia legislativa, é o disfarce perfeito para a privatização silenciosa do espólio coletivo. O clube pertence, em tese, a todos os sócios. Na prática, pertence a quem domina a máquina eleitoral interna, quem controla os conselhos, quem loteia as comissões. É a velha história da república romana que de república só tinha o nome, enquanto patrícios negociavam províncias inteiras em banquetes privados e o povo aplaudia gladiadores na arena. Troque a arena pelo estádio, o gladiador pelo camisa 9, e o patrício pelo presidente eleito em chapa única, e nada mudou. Pão e circo continuam sendo o melhor sedativo já inventado contra a indignação popular.
Note a beleza perversa da omissão de fiscalização. É o crime que não pede esforço, o delito do preguiçoso sofisticado. Não precisa roubar, basta deixar roubarem. Depois, quando a contabilidade vier à tona, o cartola encolhe os ombros e alega desconhecimento, como se fiscalizar não fosse justamente a função pela qual foi eleito. É o mesmo raciocínio do síndico que descobre piscina aquecida na cobertura e jura que não sabia de onde saía a conta. Só que, no caso do clube, a cobertura é campeonato estadual e a piscina aquecida é o balanço anual. A responsabilidade se dilui num organograma deliberadamente confuso, cada diretor aponta para o outro, e no meio do cabo de guerra o dinheiro simplesmente evapora.
Não adianta o torcedor apelar para a dignidade do manto. O manto é tecido, o tecido é mercadoria, e a mercadoria, nesse modelo, serve antes aos dirigentes do que à história. Enquanto o sujeito comum banca o espetáculo com cada real que gasta na bilheteria e em cada minuto de audiência que entrega à emissora, a estrutura de governança se mantém blindada, auditada por gente escolhida pelos próprios auditados, vigiada por conselhos que frequentemente integram a mesma panelinha que deveriam investigar. É o raposa cuidando do galinheiro elevado à doutrina, com estatuto, regimento interno e cerimonial próprio. Pode haver denúncia, pode haver processo, pode haver manchete, mas o ciclo se repete com nomes diferentes a cada eleição.
A pergunta que ninguém em sã consciência faz em mesa de bar, porque estragaria a cerveja, é esta: se o clube fosse uma sociedade anônima de verdade, com acionistas vigilantes, lucros tributados, prejuízos punidos pelo mercado e diretores respondendo com o próprio patrimônio, o esquema descrito na denúncia teria prosperado por tantos anos? A resposta incomoda porque é evidente. A mesma torcida que exige transparência grita contra qualquer tentativa de profissionalizar a gestão, agarrada à ficção romântica de que clube é família. Família, meu caro, não distribui cargos comissionados nem contrata parente do tesoureiro como fornecedor exclusivo. Enquanto essa ficção continuar sagrada, a resposta à pergunta inicial permanecerá sempre a mesma. Quem paga é o torcedor. Quem recebe é o de sempre.
Com informações da Poder360. A análise e opinião são do O Algoz.