Há um ritual tão antigo quanto o próprio Estado que consiste no seguinte: quando as contas domésticas não fecham, quando a reforma prometida não chegou, quando o cidadão comum ainda não entendeu muito bem o que foi feito com o dinheiro dele, o ministro viaja. Não é fuga, é "agenda internacional". Não é turismo de primeiro mundo às custas do erário, é "fortalecimento da posição do Brasil no debate global". O eufemismo é a alma do poder. Sempre foi. O imperador romano que mandava seus legados a conferências de paz enquanto o grão escasseava em Roma teria reconhecido o método com um sorriso cansado.
A pauta da missão é um manual de como transformar o concreto em abstrato e o roubo em virtude cívica. "Reforma tributária internacional" é o nome bonito para um acordo entre governos soberanos decidindo, em conjunto, o piso mínimo que cada um vai cobrar de suas empresas, para que nenhum deles perca receita para um concorrente mais eficiente. Em linguagem direta: é um cartel de Estados. Quando empresas privadas se reúnem para fixar preços mínimos e eliminar a concorrência, a polícia chama, o Cade multa e o jornal escreve sobre crime econômico. Quando governos fazem exatamente o mesmo com alíquotas tributárias, isso ganha o nome de "cooperação multilateral" e o ministro voa para Nova York ou Paris para assinar o documento com ar de estadista. A diferença entre os dois casos não é moral. É apenas quem detém o monopólio da força.
"Transição energética" aparece na pauta com a naturalidade de quem cita uma lei da física. Como se houvesse um consenso inatacável sobre quais energias devem ser subsidiadas, quais devem ser penalizadas e, sobretudo, quem deve pagar a conta desta transição que ninguém jamais votou diretamente. A resposta, como sempre, está no fim da cadeia produtiva: o consumidor final. O trabalhador que paga energia elétrica mais cara para que uma empresa de painel solar instalada em outro continente receba créditos de carbono negociados em bolsas que a maioria dos brasileiros jamais ouviu falar. O preço político desta engenharia é invisível porque é difuso. Ninguém recebe uma linha no extrato bancário chamada "custo da agenda climática internacional". O dinheiro simplesmente desaparece antes de chegar ao salário líquido, como sempre desapareceu.
O terceiro ponto da pauta, "fortalecimento de instituições multilaterais", é o mais revelador de todos porque é o mais honesto na sua desonestidade. Instituições multilaterais são organismos que acumulam poder sem jamais enfrentar eleição, que emitem recomendações que viram políticas públicas sem ter sofrido o constrangimento de um mandato popular, que são financiadas compulsoriamente pelos Estados membros, portanto pelos contribuintes desses Estados, e que respondem primariamente aos seus próprios quadros técnicos e aos governos mais influentes dentro delas. "Fortalecer" estas instituições significa, em tradução precisa, aumentar sua capacidade de influenciar decisões nacionais sem o incômodo do processo democrático doméstico. É a terceirização da soberania apresentada como cosmopolitismo progressista. Toda oligarquia da história que precisou justificar seu poder inventou uma narrativa de universalidade. Isto não é diferente.
O que a viagem demonstra, com a clareza involuntária dos atos políticos quando destrinchados sem cerimônia, é a hierarquia real de prioridades deste governo. O ministro não foi a Campinas conversar com industriais sobre o custo Brasil. Não foi a Caruaru discutir por que a carga tributária sobre o pequeno empresário nordestino é maior, em proporção, do que a que recai sobre fundos de investimento sofisticados. Foi para Nova York e Bruxelas, onde os interlocutores têm gravata e sotaque internacional e onde nenhuma câmera da imprensa regional vai filmar o aperto de mão. O cidadão brasileiro que sustenta este aparato com parte substancial de cada real que ganha não foi consultado sobre a necessidade desta representação, não escolheu a agenda que seria defendida em seu nome e não verá nenhum benefício mensurável quando o ministro retornar. Mas pagará a conta, como sempre paga, sem recibo, sem nota fiscal e sem agradecimento.
Com informações da Jovem Pan. A análise e opinião são do O Algoz.