O ministro da Segurança Nacional de Israel, Itamar Ben-Gvir, decidiu que detenção administrativa precisava de cobertura audiovisual e publicou nas redes um vídeo dos ativistas da flotilha humanitária amarrados, sentados no chão, exibidos como troféu de caça. Dias depois, vieram o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu e o chanceler condenar o gesto, performance de pudor tardio que engana apenas quem nunca leu um jornal na vida. O ministro não foi demitido, não foi afastado, não perdeu sequer o crachá. Logo, a condenação vale o mesmo que cheque sem fundo assinado por morto: papel.

Convém lembrar como esse senhor chegou à pasta. Ben-Gvir não desceu de paraquedas no gabinete; foi colocado ali por Netanyahu como preço de coalizão, moeda paga aos ultranacionalistas religiosos para manter o premiê fora da cadeia e dentro do palácio. Quem paga a fatura desse arranjo? O contribuinte israelense, que sustenta um ministro condenado no passado por apoio a organização terrorista, e o contribuinte norte-americano, que financia a engrenagem com bilhões anuais em ajuda militar carimbada como inevitável. Quem recebe? O gabinete que sobrevive mais um dia, a indústria bélica que vende o estoque, e o próprio Ben-Gvir, que transforma humilhação alheia em capital eleitoral. Toda a cena, das algemas à câmera, é subsidiada.

A defesa do gesto se apoia naquele truque retórico antigo, o de embrulhar bandido e ativista no mesmo saco para que o público não distinga o conteúdo. Acontece que a lógica é teimosa e não negocia: ou os detidos cometeram crime, e então respondem em tribunal com direito a defesa, ou não cometeram, e então amarrá-los e filmá-los é abuso de autoridade puro. Não existe meio termo confortável entre o devido processo e a humilhação pública. Quem mistura as duas coisas não está defendendo a segurança de ninguém, está apenas confessando que o procedimento legal lhe parece um luxo dispensável quando a vítima é antipática o suficiente.

O fingimento de Netanyahu cumpre a função que sempre cumpriu nesses regimes de coalizão envenenada: terceirizar a brutalidade para o sócio menor e ficar com a aparência de estadista para a foto com diplomata europeu. É a velha divisão de trabalho do poder, em que um faz o serviço sujo e o outro lava as mãos em público, ambos sabendo de antemão como o roteiro termina. A crítica oficial não passa de nota de rodapé feita para o consumo externo, enquanto, internamente, o ministro continua despachando, continua aparecendo, continua filmando. Se a reprovação fosse séria, custaria o cargo. Como não custa nada, vale nada.

O detalhe que ninguém quer encarar é que o monopólio estatal da força, quando descolado de qualquer freio sério, sempre termina nessa cena: o agente público posando ao lado do detido, transformando o cidadão em objeto cênico de uma campanha. Aconteceu nas praças de execução medievais, aconteceu nos paredões revolucionários, aconteceu nos campos de reeducação do século passado, e acontece agora num vídeo de celular postado por um ministro entediado. A tecnologia muda, a vaidade do carrasco não. E enquanto eleitor de qualquer país continuar tratando esse tipo de espetáculo como mero excesso de zelo, e não como sintoma do arranjo inteiro, o próximo ministro vai filmar em qualidade ainda melhor.

Resta a pergunta de sempre, a única que importa quando se desmonta esse tipo de notícia. Quem paga pela manutenção desse gabinete, pelas algemas, pela operação, pela ajuda militar que blinda toda a engrenagem? O contribuinte, sempre o contribuinte, dos dois lados do oceano. Quem recebe? O político que precisa do escândalo para sobreviver, o aliado que precisa do político para evitar a prisão, e a plateia que troca um pedaço da própria dignidade civilizatória pela emoção barata de ver um inimigo no chão. Negócio péssimo, pago à vista, com recibo.

Com informações da Poder360. A análise e opinião são do O Algoz.