O escândalo é tão didático que merece moldura. Édipo Araújo, hoje ministro da pasta dos Povos Indígenas no governo Lula, recebeu auxílio emergencial em 2020, aquele dinheiro carimbado para quem estava sem nada comer durante a pandemia. O detalhe que transforma o caso em parábola é o seguinte: enquanto a conta engordava com a esmola pública, o sujeito mantinha vencimentos de até quinze mil reais no Ministério da Agricultura e ainda acumulava bolsas de estudo financiadas pelo contribuinte. Três tetas, um bezerro só. E o bezerro, claro, é você.

A pergunta que nenhum porta voz oficial responde é simples e cortante: quem pagou esse auxílio? Não foi o governo, porque governo não produz nada, não planta soja, não solda chapa, não emite nota fiscal. Governo apenas redistribui o que tirou. O auxílio emergencial saiu do bolso do garçom que ficou sem mesa, do dono do salão fechado por decreto, do motorista de aplicativo que rodou a cidade vazia. Esse dinheiro, suado e amargo, foi parar na conta de um funcionário público com salário garantido, estabilidade blindada e bolsa acadêmica de quebra. A miséria de muitos virou mesada de um.

Repare na engenharia do absurdo. O sujeito recebe do Estado como servidor. Recebe do Estado como bolsista. Recebe do Estado como vítima da pandemia. O mesmo cidadão ocupa simultaneamente três categorias contábeis que deveriam se excluir, e o sistema, longe de barrar a duplicidade, lubrifica a esteira. Não é falha de cadastro, é desenho. Quando o aparelho que checa é o mesmo aparelho que paga, e quem paga é também quem se beneficia, o resultado é matemático. Privilégio não é bug, é feature.

Vale lembrar que durante toda a Roma tardia os funcionários do imperador também recebiam ração de trigo gratuita do Estado, junto com salários, terras e isenções. Chamava-se annona, e era distribuído sob o argumento de que ninguém deveria passar fome. Curiosamente, os primeiros da fila eram sempre os que menos passavam. Mil e seiscentos anos depois, trocou-se a túnica pelo terno e a sandália pelo mocassim, mas a lógica do banquete é idêntica. O povo paga a festa e olha pela janela.

O mais saboroso da história é o silêncio constrangido dos defensores de ofício. Esses mesmos que rasgaram a fantasia para defender o auxílio como instrumento sagrado de justiça social agora gaguejam quando o beneficiário é um camarada de partido. A solenidade da causa evapora quando o nome do contemplado aparece na ata da posse ministerial. Justiça social, ao que parece, é um conceito elástico, esticado para incluir companheiros e encolhido para excluir constrangimentos. O verbo confiscar se conjuga sempre na terceira pessoa, e o verbo embolsar sempre na primeira.

No fim, o caso não é sobre um homem nem sobre uma assinatura num formulário online. É sobre o método. Quando se cria uma máquina que distribui dinheiro alheio com base em autodeclaração, com fiscalização frouxa e clientela infinita, o que se está fabricando não é amparo, é mercado. E nesse mercado, o cliente mais bem servido nunca é o mendigo de esquina. É o doutor de gabinete, o bolsista de carreira, o futuro ministro com três fontes de renda e nenhum constrangimento. Quem paga continua sendo o de sempre. Quem recebe, também.

Com informações da Revista Oeste. A análise e opinião são do O Algoz.