O ministro da Previdência Social, Wolney Queiroz, deu entrada na segunda-feira no Hospital Memorial Star, no Recife, com dores abdominais. Os médicos garantem que o quadro não é grave. Fico aliviado. Aliviado pelo ministro, que terá atendimento de primeira linha num hospital particular, e aliviado por mim mesmo, que posso finalmente usar a saúde de um ministro como metáfora perfeita para a saúde do sistema que ele chefia. Porque se as dores de barriga do titular da Previdência não são graves, as dores de barriga da Previdência Social brasileira são terminais, e ninguém interna esse paciente em lugar nenhum.

Repare no detalhe que o noticiário trata como perfumaria: o ministro foi para o Memorial Star, um hospital particular. Não foi para o SUS, não esperou seis horas numa fila de triagem, não ouviu que o aparelho de ultrassom estava quebrado, não dividiu maca com outros três pacientes num corredor sem ar-condicionado. O homem que administra a aposentadoria de quem ganha um salário mínimo se trata com o dinheiro de quem ganha muito mais do que isso, ou melhor, com o dinheiro de todos que sustentam a máquina. Não há escândalo aqui, dizem. É o procedimento padrão. Exatamente. O procedimento padrão é esse: quem manda, vive bem; quem paga, espera na fila. Se o procedimento padrão não incomoda, é porque o país já se acostumou com a servidão voluntária.

A Previdência Social é o maior esquema de transferência compulsória de riqueza já inventado nos trópicos. Um trabalhador de vinte e poucos anos é obrigado, sob pena de cadeia, a entregar uma fatia generosa do que ganha para financiar um benefício que talvez receba daqui a quarenta anos, se as regras não mudarem pelo caminho, e elas sempre mudam. Mudam para pior, naturalmente, porque o dinheiro que entra nunca basta. Nunca basta porque não foi desenhado para bastar. Foi desenhado para criar dependência. Getúlio sabia disso quando montou o esqueleto do sistema nos anos 30; cada governo que veio depois apenas acrescentou uma camada de gordura ao redor do mesmo osso autoritário. A promessa é sempre a mesma: "contribua agora, receba depois". É a mesma lógica de uma pirâmide financeira, com a diferença de que, numa pirâmide privada, o organizador vai preso. Numa pirâmide estatal, o organizador vai para o Memorial Star.

Dizem que o quadro do ministro é estável. O quadro do contribuinte brasileiro, esse sim, é instável. O déficit da Previdência consome centenas de bilhões por ano. Cada reforma prometida como "definitiva" se revela um remendo provisório antes que a tinta seque no Diário Oficial. O rombo cresce, a idade mínima sobe, a contribuição aumenta, e no entanto o sistema segue intocável porque nenhum político sobrevive eleitoralmente dizendo a verdade: que a Previdência pública é um pacto intergeracional involuntário no qual os jovens de hoje financiam os aposentados de hoje na esperança cega de que jovens que ainda não nasceram financiarão a velhice deles. Quem paga? Quem trabalha. Quem recebe? Quem governa a distribuição, e os apadrinhados que orbitam ao redor dela. O restante fica com as sobras, se houver sobras.

Uma dor abdominal do ministro mobiliza boletim médico, nota oficial e cobertura jornalística. A dor crônica de sessenta milhões de trabalhadores que veem o contracheque mutilado todo mês pela contribuição previdenciária não mobiliza nada, porque essa dor foi normalizada. Chama-se "encargo social". Social, vejam bem. A palavra mais prostituída do vocabulário político. Todo confisco é "social" quando o Estado precisa de uma justificativa bonita para enfiar a mão no bolso alheio. O ministro se recupera, volta ao gabinete, e o espetáculo continua. A máquina roda porque ninguém pergunta quem está na manivela e quem está na engrenagem. Boa recuperação ao ministro. Ao sistema que ele chefia, não desejo melhora nenhuma: desejo a autópsia.

Com informações do Poder360. A análise e opinião são do O Algoz.