Existe uma cena cômica que se repete milhões de vezes por dia neste país: o cidadão olha para o canto da tela, vê os 15% de bateria piscando em vermelho e, num gesto quase litúrgico, ativa o tal modo economia. A tela escurece, os ícones ficam pálidos, as notificações somem, e ele suspira aliviado, como se tivesse acabado de descobrir a pólvora. Não descobriu. Acabou de admitir, sem perceber, que o aparelho de dois, três, cinco mil reais que carrega no bolso só cumpre a promessa do panfleto publicitário enquanto está plugado na tomada. Tirou da tomada, vira abóbora.
O recurso, vendido como bondade do fabricante, é na verdade a confissão silenciosa de uma fraude consentida. Você pagou por um processador de oito núcleos, tela com taxa de atualização absurda, sincronização em tempo real, geolocalização permanente, câmera que processa imagem como se fosse estúdio de Hollywood. E a primeira coisa que o sistema faz, quando a energia aperta, é desligar exatamente aquilo pelo que você pagou a mais. É como comprar um carro esporte e descobrir que, depois dos primeiros cem quilômetros, ele só anda em primeira marcha para não gastar gasolina. Ninguém aceitaria. No celular, todo mundo aceita e ainda agradece.
Vale entender o arranjo. A indústria precisa renovar o estoque a cada doze ou dezoito meses, senão a engrenagem trava. Bateria que dura é inimiga do balanço trimestral. Então se faz o seguinte: coloca-se uma bateria modesta dentro de um aparelho faminto, programa-se o sistema para envelhecer com elegância calculada, e oferece-se, como cortesia, um botão que finge resolver o problema reduzindo o produto à metade do que ele dizia ser. O usuário sente que ganhou algo. Ganhou o quê? Ganhou o direito de usar menos do que comprou. Em qualquer outra transação isso se chamaria estelionato. No varejo eletrônico, chama-se inovação.
Há ainda a camada mais sutil, a que ninguém comenta. O modo economia corta atualizações em segundo plano, geolocalização contínua, sincronização de e-mail, cache de aplicativos, telemetria. Ou seja, desliga justamente a parte do aparelho que trabalha para outros, não para você. Enquanto a bateria está cheia, o telefone passa o dia inteiro ocupado fazendo serviço de graça para meia dúzia de empresas que vivem de vender o seu comportamento. Quando a energia escasseia, a primeira coisa sacrificada é exatamente esse trabalho invisível. Nenhuma coincidência. O aparelho não é seu enquanto há bateria sobrando; ele só volta a ser seu na hora do aperto, quando precisa decidir entre servir ao dono ou servir ao patrão de fato.
O cidadão médio, claro, não enxerga isso. Acha que ativou um truque, quando na verdade desativou um esquema. Sai por aí dizendo que o celular dura o dia inteiro com a economia ligada, sem se perguntar por que diabos precisa ligar a economia para que o aparelho cumpra a função básica de ser um telefone. A resposta é antiga, conhecida de qualquer mercador honesto: quando se vende a um preço a coisa que custa outro, a diferença sai do bolso de alguém. Nesse caso, sai do seu, e você ainda foi treinado a chamar o golpe de funcionalidade.
Quem paga, no fim, é sempre o mesmo: o sujeito que entrou na loja convencido de que comprava liberdade portátil e saiu carregando uma coleira recarregável. Quem recebe são os que faturam com a obsolescência, com a publicidade dirigida, com o tráfego de dados que roda no seu bolso enquanto você dorme. O modo economia de bateria não é um presente. É o aviso luminoso, em vermelho piscante, de que o produto que você comprou nunca foi inteiramente seu.
Com informações da O Antagonista. A análise e opinião são do O Algoz.