Aprovaram na Câmara o fim da escala 6x1 e o corte da jornada semanal de 44 para 40 horas, e o presidente da Casa, num arroubo digno de inauguração de obra inacabada, classificou a façanha como "momento histórico". Histórico é uma palavra curiosa na boca de quem legisla sobre o trabalho dos outros sem nunca ter tirado um centavo do próprio bolso para pagar folha. O político adora carimbar a história quando o custo da generosidade vai para a conta de um terceiro ausente da cerimônia, em geral o pequeno comerciante do bairro, o dono da padaria, o sujeito que abriu uma oficina depois de vinte anos de CLT e ainda paga o financiamento do ponto.

A retórica é sempre a mesma e funciona porque é emotiva: trabalhador descansa mais, vive melhor, produz mais feliz. Bonito no plenário, lindo no telejornal, comovente no Instagram do parlamentar. Só que decreto não cria hora extra de produtividade, assim como lei não fabrica chuva no sertão nem revoga a gravidade nas escadarias do Congresso. Se uma empresa precisa de 44 horas de trabalho para entregar o que entrega, e o legislador determina que sejam 40, alguma das três coisas vai acontecer, e nenhuma delas é mágica: ou se contrata mais gente que não existe no mercado, ou se paga hora extra que vai virar preço maior na ponta, ou se demite parte do quadro para fechar a equação. Escolha o seu veneno; o legislador escolheu não escolher e jogou a fatura no colo de quem produz.

Há aqui uma confusão proposital entre dois conceitos que o discurso oficial trata como sinônimos: tempo de trabalho e qualidade de vida. Não são. Quem trabalha menos numa economia produtiva, com capital abundante e moeda estável, de fato vive melhor, e isso aconteceu no mundo inteiro sem que parlamento nenhum precisasse decretar. As jornadas encurtaram porque a produtividade cresceu, e a produtividade cresceu porque alguém poupou, investiu, arriscou capital. Inverter a ordem dos fatores, decretar a jornada curta antes de gerar a produtividade que a sustenta, é exigir que a fruta amadureça antes da árvore brotar. E quando não amadurece, a culpa, claro, será do empresário "ganancioso", nunca do gênio que assinou o projeto.

Sigamos a trilha do dinheiro, que é onde o discurso costuma engasgar. Quem ganha politicamente com o anúncio? O parlamentar que carimba o feito no santinho da próxima eleição, o sindicalista que precisa justificar a mensalidade, o ministro que aparece sorrindo na coletiva. Quem paga? O empreendedor de fundo de quintal que terá de redesenhar escala num setor de margem apertada, o consumidor que verá o repasse no preço do almoço executivo, e, ironicamente, o próprio trabalhador menos qualificado, aquele que será o primeiro a virar fila no INSS quando o ajuste de quadro chegar. A bondade legislada tem sempre essa peculiaridade: o aplauso é coletivo, a conta é individual, e nunca cai no bolso de quem aplaude no plenário.

A história econômica está cheia desses momentos históricos. Cada vez que um governo decretou salário, jornada ou preço por canetada, sem que a estrutura produtiva acompanhasse, o resultado foi o mesmo cardápio: desemprego, informalidade, inflação ou fila. Mudam os figurinos, os adjetivos e os hashtags, a aritmética permanece intacta, indiferente a discursos. Curiosamente, ninguém propõe reduzir a jornada do servidor público em proporção equivalente, nem cortar a quantidade de sessões pagas com auxílio paletó, nem encurtar o recesso parlamentar de quatro meses anuais. A generosidade reformista esbarra sempre, milagrosamente, na porta do próprio gabinete.

Resta o Senado, e com ele a oportunidade de transformar o "momento histórico" em mais um capítulo da farsa repetida ou em algo levemente menos ruinoso, com transições, gradualismos e respeito pela realidade de quem realmente assina a folha. Não se iluda com o vocabulário solene: quando o político fala em "conquista do trabalhador", traduza para o português dos adultos como "fatura emitida em nome do trabalhador, a ser quitada por ele mesmo, em prestações disfarçadas de inflação, desemprego e preço de mercado". O rei continua nu, o cetro de papelão, e a multidão aplaudindo a roupa que ninguém viu. Quem paga, paga calado. Quem recebe, sobe na tribuna e chama de história.

Com informações da Poder360. A análise e opinião são do O Algoz.