Cinco dias. Foi o tempo que o canal de Monark sobreviveu na sua mais recente ressurreição no YouTube antes de ser fulminado outra vez, sem julgamento, sem direito de defesa, sem nada que se pareça com aquela coisa antiga e empoeirada chamada devido processo legal. O influenciador agora reclama que a punição foi "desproporcional", admite erros do passado e pede uma régua mais justa. Pede para quem, exatamente? Para o senhor feudal que arrenda o terreno onde ele plantava sua própria voz. É como o camponês medieval implorando por clemência ao barão depois de descobrir que o moinho, o forno e a estrada eram todos do mesmo dono.
O ponto que quase ninguém quer enxergar é estrutural, não moral. Não interessa, para esta coluna, se Monark falou bobagem, blasfêmia, heresia ou genialidade. Interessa que existe um balcão único, privado na fachada e politicamente capturado nos bastidores, capaz de apagar do mapa um sujeito com milhões de espectadores num clique de estagiário em São Bruno, Califórnia. Quem paga essa conta? O criador, que perde anos de trabalho. Quem recebe? A plataforma, que monetiza enquanto convém e descarta quando o vento político muda. E o regulador togado daqui, que adora ameaçar big tech em público, na prática terceiriza a censura para a big tech, porque sai mais barato e a digital fica nas luvas dela.
Há uma confusão deliberada no ar, e ela serve a interesses muito concretos. Misturam-se dois conceitos que não deveriam dormir na mesma cama: a liberdade do dono da plataforma de definir suas regras, e o monopólio prático que essa mesma plataforma exerce sobre a praça pública digital. No papel, o YouTube é uma empresa privada e pode banir quem quiser, ponto. Na vida real, ele opera num mercado moldado a marretadas regulatórias, com concorrentes assassinados no berço, intimações de gabinetes ministeriais e acordos de bastidor que ninguém assina mas todos cumprem. Chamar isso de livre mercado é como chamar de banquete a sopa de prisioneiro.
Convém lembrar que toda inquisição séria começa com aplausos. Queimaram livros sob ovação popular, exilaram poetas com a benção dos jornais, e cada época encontrou o seu hereje conveniente para servir de exemplo. O método é sempre o mesmo: escolhe-se um alvo de baixa simpatia, executa-se em praça pública, e o resto do rebanho aprende a balir mais baixinho. Hoje o herege se chama influenciador, amanhã se chamará empresário inconveniente, depois de amanhã o vizinho que postou a piada errada. A fogueira não pergunta a ideologia da lenha; queima o que estiver à mão.
O argumento da "desproporção" é fraco porque concede o jogo todo. Reclamar que a pena foi grande demais é admitir que o tribunal é legítimo, que o juiz tem autoridade, que o crime existe. O problema não é o tamanho da bota; é a bota estar no pescoço de alguém sem que esse alguém tenha sido sequer ouvido. Quando o silenciamento vira commodity terceirizada, com o Estado batendo palmas de longe e a plataforma fingindo que age sozinha, o que morre não é um canal. É a noção elementar de que a palavra dita no espaço comum pertence a quem fala, não a quem hospeda.
A pergunta honesta, no fim, é a mesma do começo. Quem paga? O sujeito apagado, sua audiência, e qualquer um que ainda acredite que pluralidade não é folclore. Quem recebe? A plataforma, que escapa de processos regulatórios entregando cabeças a pedido; o poder público, que censura sem assinar a censura; e a turma do bom mocismo profissional, que dorme melhor sabendo que a próxima voz incômoda já tem prazo de validade impresso na testa. O resto é detalhe de execução.
Com informações da Poder360. A análise e opinião são do O Algoz.