Quem diria que a Volkswagen, a BMW, a Stellantis, herdeiras de cem anos de engenharia que ensinaram o mundo a parafusar metal, iriam abrir centros de pesquisa em Xangai e Hefei para aprender com chineses como simplificar um carro. A notícia é tratada nos jornais europeus com aquela frieza eufemística de comunicado oficial, como se fosse apenas uma decisão logística, uma reorganização de cadeia produtiva. Não é. É a primeira vez em mais de um século que o ocidente industrial assume, sem rodeios, que perdeu a corrida que ele mesmo inventou. E perdeu porque resolveu correr com os pés amarrados.

Siga o dinheiro e a fábula desmonta sozinha. A indústria automotiva europeia não foi derrotada por gênio chinês descido dos céus, foi sufocada em casa por décadas de regulação ambiental delirante, metas de eletrificação fixadas em gabinete por burocrata que nunca apertou um parafuso, subsídios cruzados a fabricantes preferidos, impostos de carbono, normas de homologação que enchem cada modelo de duzentos quilos de penduricalho jurídico. Cada nova diretriz de Bruxelas custa bilhões em adaptação, e esse custo é repassado a quem? Ao consumidor que ainda dirige a gasolina, ao operário cuja fábrica fecha em Wolfsburg, ao engenheiro que agora arruma as malas para morar em mandarim. Quem paga é o europeu comum. Quem recebeu durante anos foi o lobby verde, a consultoria climática, o conglomerado favorito do dia. Pago para arruinar a casa, agora pago para ir bater à porta do vizinho.

O argumento oficial é encantador na sua desonestidade. Dizem que vão à China para aprender velocidade, simplicidade, redução de complexidade no projeto. Traduzindo do dialeto corporativo para o vernáculo dos vivos, vão aprender a não obedecer ao que Bruxelas mandou obedecer. Lá no oriente, sem comissário inspecionando o tamanho da maçaneta nem ONG processando o tom do verniz, projeta-se um carro em dezoito meses. Aqui, com as bênçãos regulatórias da civilização superior, leva-se quatro anos e o resultado custa o dobro. Não é mistério tecnológico, é aritmética política. Quando se proíbe respirar de graça, o ar engarrafado fica caro.

Há uma ironia histórica que merece ser saboreada com calma. Foi o ocidente que vendeu suas próprias linhas de montagem aos chineses nos anos noventa, sob a tese encantada de que o mercado livre civilizaria Pequim e que a globalização era um cassino onde todo mundo ganhava. Transferiram tecnologia, treinaram engenheiros, abriram joint ventures obrigatórias e acharam que iam ficar com o miolo do projeto enquanto entregavam só a casca. Vinte anos depois, o aluno aprendeu, simplificou, escalou e voltou para vender carro elétrico mais barato no quintal do mestre. Não é traição, é o resultado lógico de quem confunde vassalagem comercial com diplomacia. As civilizações que se deitam com o dragão acordam com queimadura.

O mais sintomático é o silêncio dos sindicatos europeus, aqueles mesmos que aplaudiram cada decreto verde, cada meta de zero emissões, cada subsídio à vanguarda climática. Agora que as vagas migram para Hefei, descobrem tardiamente que regulação não cria emprego, regulação realoca emprego, geralmente para longe de quem aplaudiu. O proletariado de Stuttgart vai descobrir, na boca do caixa, que a virtude ambiental decretada por gente que voa de jato particular custa um carro popular, uma fábrica, um bairro inteiro. Toda intervenção bem-intencionada cobra seu pedágio, e o pedágio é sempre cobrado de quem não estava na sala da reunião.

O carro alemão deixará de ser alemão pelo mesmo motivo que o sapato italiano deixou de ser italiano e o brinquedo americano deixou de ser americano. Não porque o chinês é mais esperto, mas porque o europeu foi convencido por sua própria classe dirigente de que produzir é pecado, lucrar é vergonha e regular é redenção. O resto é consequência matemática. Quem paga a conta da decadência decretada por comitê é o trabalhador que vai trocar a linha de montagem pelo seguro-desemprego. Quem recebe é o burocrata que assinou a diretriz, o consultor que vendeu a transição, e agora o engenheiro chinês que vai ensinar o velho mundo, com a paciência de quem foi aluno por trinta anos, como se faz um automóvel sem pedir licença.

Com informações da Poder360. A análise e opinião são do O Algoz.