A notícia chega quase como deboche cósmico. Em Aquiraz, no Ceará, uma estrutura de vinte e oito metros de altura acaba de ser certificada pelo Guinness como a montanha-russa aquática mais alta do mundo. Não foi o BNDES quem ergueu, não foi o Ministério do Turismo quem projetou, não houve comitê interministerial coordenando a empreitada com aquela eficiência típica das obras que envelhecem inacabadas. Foi capital privado, risco privado, engenharia privada, suor privado. E o resultado, este sim, virou patrimônio mundial registrado em livro inglês.
Convém parar um instante diante do contraste. O mesmo país que não consegue concluir uma ferrovia iniciada na ditadura, que entrega aeroporto novo com goteira no teto, que levou décadas para asfaltar trecho de rodovia federal cujo orçamento sumiu em três reformulações, este mesmo país produz, quando o burocrata tira o pé do pescoço do empreendedor, a atração aquática mais alta do globo terrestre. Não é milagre, é evidência. Onde o investidor pode investir e colher, surge maravilha. Onde o funcionário público assina o cheque alheio, surge cratera.
Pense no que custa erguer algo assim. Engenheiros estruturais, cálculo hidráulico, aço importado, treinamento de operadores, seguro de responsabilidade civil, manutenção diária, certificação internacional. Cada centavo gasto saiu do bolso de quem arriscou abrir um parque na praia do Porto das Dunas em mil novecentos e oitenta e cinco, quando a região era areia e vento. Quarenta anos depois, emprega milhares, atrai turista internacional e ainda paga, claro, a tributação sufocante que financia o discurso de que sem o Estado nada se faz. A trilha do dinheiro aqui é límpida: paga o consumidor que escolhe livremente comprar a entrada, recebe quem teve coragem de construir antes que houvesse demanda visível. Coisa rara num país onde o normal é o contrário, onde paga o contribuinte forçado e recebe o amigo do ministro.
Há também a lição estética, que ninguém comenta. As grandes maravilhas privadas do mundo, das catedrais financiadas por mecenas aos arranha céus erguidos por especuladores americanos do começo do século vinte, sempre nasceram da ambição privada querendo deixar marca. Pirâmide, basílica, Torre Eiffel, ponte de Brooklyn, tudo o que faz turista atravessar oceano nasceu de alguém querendo lucro, prestígio ou glória pessoal. O Estado constrói monumento ao próprio Estado, em geral feio e caro. O privado constrói monumento ao desejo humano, e o desejo humano, sendo o que é, costuma ser bem mais divertido que estátua de prócer.
O silogismo é simples e dispensa eufemismo. Toda riqueza visível tem origem identificável. A origem desta riqueza específica é a livre iniciativa cearense operando sob risco próprio. Logo, o crédito pertence integralmente a quem arriscou, não a quem agora correrá para tirar foto inaugurando placa. E o leitor pode apostar que correrão. Secretário aparecerá, governador discursará, deputado tuitará. Nenhum deles soldou parafuso, nenhum deles avalizou financiamento com bem próprio, nenhum deles dormirá pior se a estrutura falhar. A festa é alheia, mas o microfone, ah, o microfone é sempre deles.
Que o recorde sirva então de pequeno espelho desconfortável. Toda vez que alguém disser que o Brasil precisa de mais planejamento central, mais agência reguladora, mais plano plurianual, mais conselho de notáveis para destravar o desenvolvimento, lembre da queda de vinte e oito metros em Aquiraz. Ela existe porque ninguém pediu licença a Brasília para sonhar grande. E é exatamente por isso que está no Guinness, e não no relatório anual de obras paralisadas do Tribunal de Contas.
Com informações da Revista Oeste. A análise e opinião são do O Algoz.