Morreu na sexta-feira, dia 24, aos 105 anos, Altair Pinto Alaluna, um dos últimos pracinhas que ainda restavam para lembrar ao Brasil que existiu, sim, um tempo em que brasileiro de verdade subiu serra italiana sob neve, fogo de morteiro e burocracia ianque desconfiada, para fazer o que governo nenhum jamais faz por conta própria, que é arriscar a própria pele. Natural de Sumidouro, na Serrana fluminense, o homem integrou a Força Expedicionária Brasileira, aquela mesma que Vargas mandou para a Itália meio a contragosto, depois de medir com régua de político o peso de ficar do lado certo da prateleira quando a poeira baixasse. Os pracinhas embarcaram sem fardamento decente, sem treinamento adequado, sem botas para a neve, e voltaram com Monte Castello no currículo. O Estado embarcou na fotografia.
Convém olhar para a conta sem sentimentalismo, porque é nela que mora o escândalo. O soldado raso que tomou Montese ganhava um soldo de miséria, voltou para casa sem pensão decente, foi empurrado para a fila do esquecimento e teve de brigar décadas a fio, na Justiça e no Congresso, para que se reconhecesse o óbvio, ou seja, que homem que largou roça, oficina e balcão para ir morrer em país estrangeiro merece, no mínimo, não morrer de fome no próprio. Enquanto isso, generais de gabinete que jamais ouviram um tiro sequer acumularam patentes, mordomias, casas funcionais, motoristas, cotas de combustível e aposentadorias integrais aos cinquenta e poucos anos. A República, sempre tão eloquente em discursos de sete de setembro, é mesquinha como agiota de esquina na hora de pagar quem fez por merecer.
É a velha alquimia do poder, que transforma bravura em folclore e folclore em verba carimbada para terceiros. O pracinha vira selo dos Correios, busto encardido em praça pública e parágrafo decorativo em livro didático, ao passo que o orçamento real, aquele que sai do bolso do contribuinte e some em rubricas obscuras, alimenta um exército paralelo de assessorias, comissões comemorativas, secretarias de memória, fundações com placa de bronze e ONGs amestradas que vivem de explicar ao povo, em linguagem inclusiva, o que o povo já sabia sem precisar de intérprete. Quem paga é o cidadão comum. Quem recebe é a casta que monetizou a saudade alheia.
Há uma lição aristotelicamente simples nessa história, e ela cabe em um silogismo que qualquer criança de sete anos entende. Coragem é virtude que se prova em ato, não em retórica. Quem encara morteiro inimigo sob neve italiana pratica o ato. Logo, o pracinha é corajoso, e o burocrata fardado que assina diário oficial em sala refrigerada, não. O resto é maquiagem. Mas a República brasileira, especialista em inverter a ordem natural das coisas, condecora o segundo e esquece o primeiro, porque o primeiro morre, e o segundo vota, faz lobby, frequenta jantar de gala e tem genro em ministério.
O detalhe mais cruel da partida de seu Altair é justamente o que ela revela sobre o presente. Enquanto se apagam, um a um, os últimos olhos que viram de verdade o que é uma guerra, prolifera no país uma indústria barulhenta de patriotas de ocasião, gente que jamais cumpriu sequer um dia de serviço militar obrigatório sem chorar, mas que sabe de cor o hino, vende camiseta verde e amarela com margem de trezentos por cento e exige do próximo um sacrifício que nunca se dispôs a fazer. O pracinha de Sumidouro nada disso precisou. Pegou o fuzil, subiu a montanha, voltou calado e morreu cento e cinco anos depois, sem dever nada a ninguém. É esse tipo de homem que o Estado não sabe imitar, só explorar postumamente.
Resta a pergunta que abre e fecha qualquer análise honesta. Quem paga pela memória oficial dos heróis? O contribuinte, sempre. E quem recebe? Não é o herói nem a família dele, garanto. É a engrenagem palaciana que vive de lustrar caixão alheio enquanto enche o próprio. Seu Altair foi maior que o país que o mandou guerrear e maior ainda que o país que o esqueceu. Descanse em paz, soldado. O senhor já cumpriu sua parte. A vergonha, a partir de agora, é toda nossa.
Com informações da Revista Oeste. A análise e opinião são do O Algoz.