Você está na estrada, o motoqueiro ultrapassa, estica a perna para o lado e some no horizonte. Parece tique nervoso, parece exibição, parece qualquer coisa, menos o que de fato é: uma linguagem inteira, codificada, autorregulada, nascida sem comissão parlamentar, sem audiência pública e sem um único centavo de verba do contribuinte. Perna esquerda apontada para baixo, em geral, avisa buraco, óleo, cachorro morto, animal vivo, qualquer armadilha do asfalto. Perna direita, em certas regiões, sinaliza radar, blitz, viatura escondida atrás da placa de propaganda do prefeito. Em outros contextos, a perna esticada vira simples agradecimento ao colega que cedeu passagem, um aceno horizontal porque tirar a mão do guidão a cento e vinte por hora é receita de viúva.
Repare na coisa que está diante dos seus olhos. Ninguém convocou congresso de motociclistas para padronizar o código. Não houve consulta pública, não houve grupo de trabalho interministerial, não houve relatório de impacto regulatório com trezentas páginas em PDF protegido por senha. O sinal nasceu do mesmo lugar de onde nascem todas as coisas que funcionam: da necessidade real de gente real resolvendo problema real, sem intermediário cobrando pedágio. Um piloto viu o buraco, esticou a perna, o de trás entendeu, repassou ao da frente, e em poucos meses a gramática estava de pé do Oiapoque ao Chuí. Custo para o pagador de imposto: zero. Eficácia: noventa por cento mais alta que qualquer campanha do Denatran com jingle infantil e mascote sorridente.
Agora compare, porque comparar é o exercício que o poder mais detesta. O Estado gasta bilhões em sinalização que descasca em seis meses, em radar que mede a velocidade do vento, em campanha educativa cujo único efeito mensurável é engordar a agência de publicidade amiga do secretário. Para cada perna esticada que salva uma vida de graça, existe um decreto de trezentos parágrafos que cria três cargos comissionados, uma taxa nova e um problema que antes não existia. O motoqueiro resolve sinalizando com a canela. O burocrata resolve cobrando IPVA, taxa de licenciamento, seguro obrigatório, multa por farol baixo de dia, multa por farol baixo de noite quando devia ser alto, e um curso de reciclagem ministrado por compadre do secretário de segurança.
Há quem dirá que é coisa pequena, gesto folclórico, anedota de fim de semana. É justamente o contrário. A perna esticada é a prova viva de que a cooperação humana não depende de canetada para existir, e quando depende, geralmente piora. O sujeito em cima da moto está arriscando o próprio pescoço, e por isso desenvolve, junto com seus pares, uma linguagem que protege o próximo pescoço, porque amanhã o próximo pescoço pode ser o dele. É o velho mecanismo das corporações de ofício medievais, das guildas de comerciantes da liga hanseática, dos pilotos de barco no Mississippi do século dezenove que inventaram o próprio sistema de licenciamento antes que qualquer prefeito sequer soubesse que rio existia. Onde há risco real e pele em jogo, a regra brota do chão. Onde há canetada e dinheiro alheio, brota o esquema.
O incômodo da autoridade com esse tipo de fenômeno é antigo e revelador. Toda vez que uma comunidade resolve um problema sem pedir licença, alguém de gravata acorda preocupado com a perda de relevância. Não tarda a aparecer o projeto de lei para oficializar os sinais dos motociclistas, criando, claro, um manual obrigatório, uma taxa de adesão, um curso pago e a multa para quem esticar a perna fora do padrão homologado. No dia em que isso acontecer, e vai acontecer, lembre que o sinal já existia, funcionava, salvava vidas e não custava nada. A única coisa que muda com o decreto é que passa a custar, e o dinheiro vai parar exatamente no bolso de quem nunca andou de moto na vida.
A próxima vez que vir aquela perna esticada na estrada, faça uma pequena reverência mental. Você está testemunhando algo cada vez mais raro: seres humanos cooperando voluntariamente, sem intermediário, sem cobrança, sem ameaça, sem propaganda oficial, sem ministério, sem secretaria. Está vendo, em estado puro, a coisa que o poder passou os últimos séculos tentando convencer você de que não existe, de que é impossível, de que sem a tutela do papai grande a humanidade volta às cavernas. Pois aí está, a dois palmos do escapamento, calçando bota de cano alto, mostrando que a ordem nasce da liberdade, e não o contrário. Quem paga pelo gesto? Ninguém. Quem se beneficia? Todo mundo. Não admira que incomode tanto.
Com informações da O Antagonista. A análise e opinião são do O Algoz.