Um homem entrou vivo num supermercado e saiu morto pela lateral do estacionamento. O carro despencou da estrutura, o corpo foi recolhido pelo Corpo de Bombeiros às quinze horas e quarenta e quatro minutos de um domingo de abril, e o mundo seguiu girando sem maiores constrangimentos. Ninguém vai preso. Ninguém perde alvará. Nenhum engenheiro responsável pela obra terá o nome mencionado em qualquer audiência pública. A máquina de absolver o poder corporativo já está aquecida, o seguro já acionado, o departamento jurídico já redigindo a peça que vai transformar a morte de um homem concreto, de carne e osso, num número de processo enterrado em alguma vara cível de São Paulo.
Há uma mentira estrutural no modo como o Brasil trata a relação entre o cidadão e o grande estabelecimento comercial. A mentira se chama "fiscalização". O Estado emite alvarás, cobra taxas, exige laudos, certifica estruturas, aprova projetos, contrata fiscais, monta secretarias, nomeia diretores, institui conselhos, publica portarias, realiza inspeções periódicas, e ao fim de todo esse teatro burocrático o estacionamento cai. O laudo estava em dia. O alvará estava vigente. O homem está morto. A pergunta que ninguém tem coragem de formular em voz alta é simples e devastadora: para quê serviu tudo isso? A resposta honesta é que serviu para criar a ilusão de segurança, cobrar por ela em impostos e taxas, e distribuir o produto dessa cobrança entre funcionários públicos e empresas que aprenderam muito cedo a domar o fiscal com o custo de um almoço.
O estacionamento de um grande atacadista não é obra de pedreiro de bairro. É estrutura projetada por escritório de engenharia, aprovada por prefeitura, construída por empreiteira com CNPJ e responsável técnico registrado no CREA. O concreto não mente, não tem partido, não negocia. Quando ele falha é porque algo estava errado antes, muito antes do domingo ensolarado em que o carro de um homem se tornou projétil. Estruturas não colapsam por acidente, colapsam por decisões, por economia onde não se economiza, por negligência que se acumula silenciosa enquanto o fluxo de caixa da operação exige que o custo de manutenção seja o primeiro a ser cortado numa reunião de diretoria que jamais virá a público.
E aqui está o ponto que nenhum jornalista de redação climatizada vai tocar com a ponta do dedo: o problema não é a ausência de regulação, é a substituição da responsabilidade real pela regulação formal. Quando o Estado assume o papel de certificar que tudo está bem, ele também assume, silenciosamente, o papel de absorver a culpa quando tudo vai mal. A empresa diz que tinha o alvará. A prefeitura diz que a inspeção estava em dia. O engenheiro diz que assinou o laudo de acordo com a norma vigente. O morto não diz mais nada. Impunidade não é exceção ao sistema, é o produto natural de um sistema que foi construído para distribuir responsabilidade até o ponto em que ela se torna invisível. Nenhum Estado da história humana jamais salvou um único homem com papel.
A família desse homem vai encontrar, pela frente, anos de litígio contra uma empresa com departamento jurídico mais caro do que o salário que o falecido recebia por ano. O advogado deles vai cobrar uma porcentagem que fará a tragédia dobrar. O juiz vai decidir uma indenização que nenhuma perícia contábil conseguirá tornar justa porque nenhum número é justo quando o bem perdido é insubstituível. E Taboão da Serra vai continuar tendo estacionamentos similares, com laudos similares, fiscalizados pela mesma estrutura que deixou esse cair. A única coisa que garante que um estacionamento é seguro não é o papel do fiscal, é o fato de que, quando ele cai, alguém paga um preço que dói de verdade. No Brasil, esse preço nunca dói em quem decide. Por isso, eles continuam decidindo da mesma forma.
Com informações da Gazeta Brasil. A análise e opinião são do O Algoz.