O enquadramento da matéria é uma obra-prima de desonestidade intelectual bem acabada. O problema, dizem, é o motorista. O cidadão que esqueceu de olhar o velocímetro, que avançou três segundos no amarelo, que estacionou meio metro depois da faixa, que não renovou o documento no prazo kafkiano estipulado pelo guichê. A culpa é sempre do sujeito distraído, do trabalhador cansado voltando do turno, do pai que atrasou para buscar o filho na escola. Ninguém pergunta o óbvio, que é a pergunta que deveria abrir qualquer conversa sobre trânsito neste país: se o erro é tão pequeno e tão humano, por que ele custa tão caro? E, mais importante, para onde vai esse dinheiro?
Siga a trilha e o panorama se ilumina como vitrine de shopping. Cada radar instalado numa descida suave, cada sinalização proposital de sessenta para quarenta sem transição, cada faixa de pedestre pintada em lugar onde não existe pedestre há décadas, tudo isso não é resultado da incompetência do engenheiro de tráfego. É projeto. É planejamento orçamentário. A prefeitura assina contrato com empresa concessionária de fiscalização eletrônica, a empresa instala o equipamento, a multa é emitida, e o bolo é dividido entre o caixa público e o parceiro privado que sobrevive, literalmente, da infração alheia. Se o motorista parasse de errar amanhã, metade dessa engrenagem iria à falência. Por isso, faça o favor, ela não quer que você acerte.
Há algo quase medieval na arquitetura desse arranjo. Antigamente, o senhor feudal cobrava pedágio na ponte, no vau do rio, no portão da muralha. Quem quisesse passar, pagava. A diferença é que o nobre tinha o decoro de admitir que estava cobrando pela travessia. O Estado moderno, mais refinado, inventou a ficção de que não cobra pedágio, apenas pune infrações em nome da segurança coletiva. Santa segurança coletiva. É o álibi universal, o curinga retórico que transforma confisco em pedagogia cívica. Você não está sendo saqueado, está sendo educado. Agradeça e pague o boleto em dez dias para ter desconto de vinte por cento, como quem recebe um cupom promocional da própria servidão.
Observe a lógica elementar do negócio. Se o objetivo declarado fosse realmente proteger vidas, a infração cairia com o tempo, a arrecadação diminuiria, e o sistema seria dado por cumprido. Acontece o contrário. Quanto mais multas, mais radares novos, mais pontos cegos convenientemente instalados em avenidas de fluxo intenso, mais horário de almoço em que o limite cai dez quilômetros sem aviso decente. O que funciona na vida real é o que gera receita, e o que gera receita, convenhamos, é o motorista atrapalhado, não o motorista perigoso. O bêbado irresponsável na madrugada não aparece no radar fixo às duas da tarde. Quem aparece é a manicure indo trabalhar. É nela que o sistema se sustenta.
A recomendação honesta para o leitor é prática e desencantada. Sim, cuide do velocímetro, respeite a sinalização, mantenha a documentação em dia, porque o custo de errar é alto demais e foi calculado exatamente para ser alto demais. Mas não caia na narrativa moralizante de que o problema é o seu descuido. O descuido foi precificado. Você não está sendo tratado como cidadão adulto num pacto social, está sendo tratado como fonte de receita recorrente num modelo de negócio em que você nunca assinou contrato. Da próxima vez que abrir uma notificação de infração, leia com atenção quem é o beneficiário final daquele valor. A resposta explica mais sobre política brasileira do que qualquer editorial de domingo.
Com informações da O Antagonista. A análise e opinião são do O Algoz.