O fato é cristalino e merece ser dito sem maquiagem: usar o Waze enquanto se dirige, tocando na tela, manipulando o aparelho com a mão, configura infração gravíssima no Código de Trânsito Brasileiro, multa de quase trezentos reais, sete pontos na carteira, e a graça é que isso vale mesmo que o dito celular esteja num suporte fixo no painel. Basta o agente entender que houve manuseio. Entender. Repare na palavra. A infração nasce da interpretação subjetiva de um funcionário público armado de talão, não de um perigo concreto à coletividade. O motorista que olha de relance para o GPS é punido. O ônibus de turismo que trafega sem revisão há três anos, com pneu careca e motorista dopado de rebite, esse passa pela mesma blitz e segue viagem, porque blitz não é feita para pegar o que oferece risco real, é feita para pegar o que oferece arrecadação fácil.

Convém perguntar, com a candura de uma criança que ainda não foi domesticada pela escola pública: a quem aproveita esta lei? Não ao pedestre, que continua sendo atropelado em faixa por motorista alcoolizado às três da manhã. Não ao passageiro, que segue refém de aplicativo cujo algoritmo o próprio Estado proíbe o motorista de consultar. Aproveita ao caixa do município, ao caixa do Detran, ao caixa do fundo de não sei o quê, à indústria do curso de reciclagem, à indústria do despachante, à indústria do recurso administrativo, todas elas alimentadas pelo mesmo cadáver: o seu salário. Cada multa é uma transferência compulsória da poupança do trabalhador para o conforto da burocracia. Chamam isso de educação no trânsito. Os romanos, que pelo menos eram honestos, chamavam de tributo.

O silogismo é embaraçosamente simples e por isso ninguém quer enunciá-lo em voz alta. Se a finalidade declarada da norma é proteger vidas, então deveria existir correlação entre o rigor da fiscalização e a queda da mortalidade no trânsito. Ora, o rigor cresce ano após ano, as multas explodem, os radares se multiplicam como cogumelos depois da chuva, e os índices de morte permanecem teimosamente estáveis nas regiões onde o serviço público de saúde, de pavimentação e de sinalização é uma piada de mau gosto. Logo, a finalidade declarada não é a finalidade real. Quando o resultado contradiz sistematicamente o discurso, o discurso é mentira e o resultado é o verdadeiro projeto. Sempre foi assim. Sempre será.

Há ainda o detalhe pitoresco de que o Estado, que proíbe o cidadão de tocar no celular para conferir o mapa, é o mesmo Estado que enche o asfalto de placas confusas, desvios sem sinalização prévia, obras eternas sem indicação, semáforos quebrados há meses, lombadas invisíveis pintadas de cinza sobre asfalto cinza. O motorista precisa do Waze justamente porque o serviço pelo qual paga, isto é, a malha viária minimamente legível, não é entregue. Cobra-se IPVA de carro de luxo para entregar estrada de carroça, e em seguida pune-se o cidadão por usar a muleta tecnológica que ele próprio teve de comprar para suprir a incompetência oficial. É a mesma lógica do feudal que cobrava pedágio na ponte podre e multava o servo que atravessasse a nado.

O conselho prático existe, e é humilhante ter de dá-lo a homens livres num país que se diz república: configure a rota antes de dar partida, fixe o aparelho em suporte, ative o comando de voz, e reze para que o agente de plantão não esteja precisando bater meta. Mas o conselho de fundo é outro, e esse não cabe em manual de autoescola. Toda vez que uma nova proibição surge embrulhada em retórica de segurança, vale a pena fazer a pergunta antiga e indelicada: quem paga e quem recebe? Enquanto a resposta for sempre a mesma, o pagador o de sempre, o recebedor o de sempre, a única coisa que muda é o pretexto. Hoje é o celular. Amanhã será o cinto que está apertado demais, ou o adesivo no para-brisa, ou a cor do tapete. O talão não dorme. A criatividade do fisco é a única indústria nacional que jamais entrou em recessão.

Com informações da O Antagonista. A análise e opinião são do O Algoz.