A cena tem uma comicidade involuntária que nenhum humorista profissional conseguiria fabricar. Dois sujeitos se trancam numa sala de Brasília, sem horário definido porque a agenda dos donos do tempo alheio nunca tem urgência, para discutir quantos dias por semana o cidadão comum vai ser obrigado a vender a sua força de trabalho. Não há na pauta nenhum representante do padeiro da esquina, do dono da oficina mecânica, da costureira que atende em casa, da garçonete que sustenta dois filhos com o salário e a gorjeta. Há apenas o parlamentar e o ocupante do Palácio, ambos com salários blindados, aposentadorias generosas e jornadas que ninguém audita, deliberando paternalmente sobre a vida produtiva de quem nunca pisou naquele tapete.

O truque é antigo e funciona desde que a humanidade aprendeu a escrever decretos. Vende-se a medida como bondade, como conquista, como avanço civilizatório, e esconde-se debaixo do tapete a pergunta que interessa: quem paga essa conta? Porque conta sempre existe, e quando o governo proíbe alguém de fazer alguma coisa, a fatura não desaparece, apenas muda de bolso. O comerciante que hoje opera com seis funcionários no esquema atual não vai amanhecer mais generoso pela canetada presidencial. Vai fazer contas, demitir um, sobrecarregar os outros, automatizar o que puder, repassar o resto ao preço. O consumidor pagará na padaria, o trabalhador pagará no desemprego, e o político irá à televisão receber aplausos pela sua compaixão.

Há uma sabedoria muito antiga, das praças gregas onde se discutia política antes de ela virar profissão hereditária, que ensinava a julgar o homem público pelos seus atos e não pelos seus discursos. Pois examinemos os atos. Quem propõe a medida não vai reduzir a própria jornada, que já é a jornada confortável de quem manda. Quem aprovará a medida não pagará nenhum centavo do custo da transição. Quem celebrará a medida nos jornais oficiais recebe verba pública para celebrar. E quem arcará com a fatura, esse não tem assento, não tem microfone, não tem assessor de imprensa, tem apenas a obrigação silenciosa de produzir para sustentar o teatro inteiro.

O detalhe deliciosamente revelador é que o encontro nem horário tem. A reunião que mexe com cinquenta milhões de carteiras assinadas é tratada com a informalidade de um almoço entre compadres, porque para os compadres o tempo dos outros é matéria-prima abundante e gratuita. Imagine o oposto. Imagine se um grupo de empresários se reunisse, sem horário definido, para deliberar sobre quantas horas semanais o presidente da República deveria despachar. O escândalo seria intergaláctico, falariam em golpe, em afronta institucional, em ataque à democracia. Mas o contrário, a oligarquia política deliberando sobre o tempo do povo, isso se chama diálogo, se chama avanço, se chama agenda social.

Toda regulação trabalhista carrega na barriga o mesmo embrião: a presunção de que dois adultos livres não sabem negociar entre si os termos do próprio contrato e precisam que um terceiro, armado e fardado, venha definir por eles o que é justo. Esse terceiro nunca trabalhou no balcão, nunca pagou folha no dia trinta, nunca dormiu mal pensando em como honrar o décimo terceiro, mas tem a santa convicção de que sabe mais do que quem está lá. E quando a medida falhar, quando o desemprego subir, quando a informalidade explodir, quando o comércio de rua fechar as portas, ninguém naquela salinha será responsabilizado. A culpa será do mercado, do capitalismo selvagem, da ganância patronal, qualquer coisa menos da caneta que assinou o decreto.

No fim, a pergunta que abre e fecha qualquer análise honesta continua sem resposta oficial. Quem paga, paga calado e sem assento na mesa. Quem recebe, recebe aplausos, votos, manchete favorável e a sensação reconfortante de ter feito o bem com o suor alheio. É o arranjo perfeito, e por ser perfeito é também o mais antigo. Mudam os nomes na cadeira, muda o partido, muda a década, mas a coreografia é sempre a mesma: dois decidindo na salinha, milhões pagando na rua, e a imprensa oficial chamando isso de progresso.

Com informações da Poder360. A análise e opinião são do O Algoz.