Hugo Motta anunciou, com a solenidade de quem descobriu a pólvora, que não vai procrastinar a tramitação da PEC que pretende enterrar a escala 6x1. Semana que vem passa pela CCJ, em seguida nasce uma comissão especial, e até julho o plenário bate o martelo. Traduzindo do dialeto parlamentar para o português dos mortais: um homem que nunca trabalhou seis dias seguidos carregando caixa, fritando hambúrguer ou passando pano em shopping vai decidir, em nome da classe trabalhadora, como a classe trabalhadora deve organizar suas horas. É o pastor legislando sobre o rebanho que ele mesmo nunca pastoreou.

A lógica da bondade oficial é sempre a mesma e funciona como relógio suíço em dia de eleição. O político identifica uma dor real, porque ninguém aguenta mesmo seis dias de pé numa padaria por salário mínimo, e oferece uma solução que não custa nada a ele, custa tudo a terceiros e rende votos imediatos. A dor é verdadeira, o diagnóstico é falso, e o remédio é veneno com embalagem de xarope. Ninguém nunca perguntou por que o padeiro paga pouco e exige muito, ninguém nunca quis mexer na carga tributária que devora quarenta por cento do custo da contratação, mas reduzir a jornada por canetada é gratuito, dá palco, dá manchete, dá aplauso nas redes.

Siga o dinheiro e a mágica se dissolve. Reduzir jornada sem reduzir encargo significa uma de três coisas, e nenhuma delas é a fada madrinha distribuindo descanso. Ou o patrão contrata mais gente e repassa o custo ao preço final, e aí o próprio trabalhador paga mais caro no pão, no mercado, no ônibus. Ou o patrão não contrata, automatiza, terceiriza para a Índia via aplicativo, e o sujeito que ganhava pouco passa a ganhar zero. Ou o patrão fecha as portas e vira entregador de motoboy, profissão que, por ironia cósmica, ninguém ousa regulamentar porque o algoritmo não tem CNPJ para ser processado. Escolha o seu veneno, a conta sempre cai no colo do mesmo sujeito que o discurso fingia defender.

Há uma analogia histórica que serve como manual de instruções. Quando Roma decidiu congelar preços pelo édito de Diocleciano, a intenção era nobre, proteger o povo da carestia, e o resultado foi fome generalizada porque ninguém produz abaixo do custo. Quando a França revolucionária tabelou o pão, o pão sumiu das prateleiras e apareceu no mercado negro por três vezes o preço. Toda vez que o Estado decreta a realidade por ofício, a realidade responde com escassez, desemprego e mercado paralelo. A economia não é uma assembleia que obedece voto, é um conjunto de trocas voluntárias que, quando proibidas, migram para a clandestinidade ou simplesmente deixam de existir. Isso se chama lei da gravidade aplicada aos homens, e político nenhum a revogou ainda.

O detalhe mais saboroso, porém, é o que a PEC não discute. Não se fala em reduzir a carga tributária que transforma um salário de três mil em custo de seis mil para a empresa. Não se fala em flexibilizar a CLT, monumento dos anos quarenta que trata o operário como criança tutelada e o empregador como inimigo de classe. Não se fala em permitir que o próprio trabalhador negocie sua jornada, porque Deus me livre deixar adulto decidir sobre a própria vida. Fala-se apenas em impor, por cima, uma regra única, nacional, rígida, como se o comerciante do sertão e a multinacional paulista vivessem o mesmo planeta. É a velha pretensão de que uma fórmula resolve mil realidades, e essa pretensão sempre termina do mesmo jeito, com o pobre mais pobre e o político mais reeleito.

Motta quer aprovar até julho. Claro que quer. Julho é antes da janela eleitoral do ano seguinte esquentar, e nada rende palanque como dizer ao trabalhador que você lhe deu um dia de folga, sem dizer que quem vai pagar pelo dia é o emprego dele ou o preço do arroz. No fim das contas, sempre a mesma pergunta, feita em voz baixa porque ninguém no Planalto gosta de ouvi-la: quem paga e quem recebe? Paga o empregado que perde a vaga, paga o consumidor que vê o preço subir, paga o pequeno empresário que fecha a porta. Recebe o deputado que ganha a manchete, recebe a central sindical que ganha relevância, recebe o Estado que ganha mais um motivo para existir fiscalizando aquilo que ele mesmo criou. O rei segue nu, o povo segue aplaudindo, e o figurino da liberdade nunca esteve tão apertado.

Com informações da Poder360. A análise e opinião são do O Algoz.