Hugo Motta, presidente da Câmara, foi ao Palácio do Planalto nesta terça-feira fazer algo que em Brasília se considera ato de coragem extrema: reclamar. O alvo da queixa foi o ministro Guilherme Boulos, cuja postura "beligerante" contra o Legislativo estaria criando um ambiente insuportável até para quem já está acostumado a suportar o insuportável. Motta disse a Lula, com a delicadeza protocolar que o cargo exige, que Boulos não tem apoio nem dentro do próprio governo. Traduzindo do politiquês para o português: o sujeito é um estorvo que ninguém quer carregar, mas que alguém decidiu colocar no colo do Estado.

A cena é de uma ironia quase literária. O governo Lula, que se sustenta sobre a mais vasta coalizão de conveniências que o Congresso já montou, nomeou para um ministério um homem cuja única habilidade comprovada é criar conflito. Boulos construiu sua carreira política na lógica da invasão, da ocupação, do confronto permanente. E agora alguém se surpreende que, ao receber um cargo com orçamento, gabinete e caneta, ele continue fazendo exatamente o que sempre fez? É como contratar um incendiário para chefiar o corpo de bombeiros e depois reclamar do cheiro de fumaça. A surpresa de Motta é quase comovente em sua ingenuidade, ou seria, se não custasse tanto ao pagador de impostos.

Siga o dinheiro e a lógica se revela. Boulos não foi nomeado ministro por competência administrativa, por histórico de gestão ou por qualquer talento que justifique a posição. Foi nomeado porque perdeu a eleição para a Prefeitura de São Paulo e alguém precisava encontrar um destino para o protegido. O ministério virou prêmio de consolação. Quem paga esse prêmio? O contribuinte brasileiro, naturalmente, que financia o salário, o gabinete, a assessoria, os carros oficiais e toda a estrutura que permite a um agitador profissional continuar agitando, agora com verba pública. O arranjo é perfeito em sua obscenidade: o cidadão que trabalha e paga impostos sustenta o aparato de um homem cuja trajetória inteira foi dedicada a questionar o direito de propriedade desse mesmo cidadão.

O mais revelador da situação não é a reclamação de Motta, mas o que ela expõe sobre a mecânica do poder em Brasília. O presidente da Câmara não foi ao Planalto defender o contribuinte, defender a economia ou defender qualquer princípio. Foi defender a corporação parlamentar, o feudo legislativo que Boulos ousou cutucar. Em Brasília, você pode gastar bilhões em programas inúteis, pode criar ministérios para acomodar aliados, pode tributar o cidadão até o osso, mas não pode, jamais, desrespeitar o protocolo entre os poderes. O crime de Boulos não é ser incompetente ou beligerante com o povo. Seu crime é ser beligerante com o Parlamento. A hierarquia das indignações diz tudo sobre quem governa para quem.

Lula, por sua vez, ouve a reclamação com aquela paciência de quem já negociou com todo tipo de criatura política. O presidente sabe que Motta controla a pauta da Câmara, e sem a Câmara não há orçamento, não há emendas, não há a engrenagem de favores que mantém a máquina funcionando. Boulos, por outro lado, não entrega votos, não entrega base parlamentar, não entrega nada além de manchetes e polêmicas. A conta é simples: entre o presidente da Câmara e um ministro sem traquejo político, a escolha de qualquer governo pragmático é óbvia. A questão não é se Boulos será contido ou descartado, mas quando. E quando isso acontecer, ninguém devolverá ao contribuinte um centavo sequer do que foi gasto para manter o experimento.

No fim, a história se repete com a monotonia dos vícios nacionais. O governo cria cargos para acomodar aliados, os aliados criam problemas, os problemas geram reuniões, as reuniões geram notas à imprensa, e o brasileiro comum continua pagando a conta de um teatro que não pediu para assistir. Quem paga é sempre o mesmo. Quem recebe, também.

Com informações de O Antagonista. A análise e opinião são do O Algoz.